UM MUNDO NOVO
(Nora Roberts)
   Ttulo Original: IN FROM THE COLD

Nora Roberts - MacGregors 10


Em busca de refgio aps ser ferido em combate, o soldado Ian MacGregor encontra ajuda na casa de Alanna Flynn. E agora que lan est longe dos campos de batalha,
ter de enfrentar uma luta ainda maior; a conquista do corao de uma mulher!

Digitalizao: Simone Ribeiro
Reviso: Vanessa Cristina
     Um

        O nome dele era MacGregor. Agarrava-se a isso com a mesma tenacidade com que agarrava as rdeas do cavalo. A dor parecia viva, percorrendo seus braos como
uma dzia de demnios danando. Quente como o fogo, apesar do vento frio de dezembro e da neve que caa.
        Ele no conseguia mais direcionar a gua, mas permaneceu montado, confiando nela para encontrar seu destino atravs de caminhos tortuosos abertos pelos ndios,
por veados ou mesmo por homens brancos. Estava sozinho com o aroma da neve e do pinho, o barulho abafado dos cascos no solo e o brilho do crepsculo. Um mundo aquietado
pelo mar de vento lavando as rvores.
        O instinto lhe dizia que estava longe de Boston agora, longe das multides, das famlias calorosas, da civilizao. Seguro. Talvez seguro. A neve cobriria
a trilha que seu cavalo deixava e o caminho marcado por seu prprio sangue.
        Seu objetivo no era apenas ficar seguro. Nunca fora. Estava determinado a permanecer vivo, e por uma forte razo: um homem morto no podia lutar. Por tudo
que era mais sagrado, tinha jurado lutar at que fosse livre.
        Tremendo, apesar da camura e das peles sobre o corpo, os dentes batendo com um frio que vinha tanto de fora como de seu interior, inclinou-se para a frente 
a fim de falar com o cavalo, sussurrando em gals. Sua pele estava pegajosa pelo suor que a dor provocava, e o sangue que perdia era como o gelo que se formava nos 
galhos das rvores que o cercavam. Podia ver a fumaa branca que saa da boca da gua quando o animal respirava, enquanto andava com dificuldade na neve profunda. 
Rezou como somente um homem que sentia seu prprio sangue drenando do corpo podia rezar. Pela vida.
        Ainda havia uma batalha a ser travada. De maneira alguma morreria antes que levantasse sua espada.
        A gua relinchou em cumplicidade quando ele desmoronou contra o pescoo dela, a respirao ofegante. O problema estava no ar, assim como o cheiro de sangue. 
Com uma inclinao de cabea, a gua continuou na direo do vento, seguindo seu prprio instinto de sobrevivncia e se dirigindo para o Oeste.
        A dor era como um sonho agora, flutuando na mente dele, nadando em seu corpo. Pensou que se pudesse pelo menos acordar a dor desapareceria. Como acontecia 
nos sonhos. Ele tinha outros sonhos... violentos e vividos. Lutar contra os britnicos por tudo que haviam lhe roubado. Recuperar seu nome e sua terra... lutar por 
tudo que os MacGregors tinham conquistado com orgulho, suor e sangue. Por tudo que haviam perdido.
        Ele nascera na guerra. Parecia justo e correto que morresse na guerra. Mas no ainda. Esforou-se para endireitar o corpo. No ainda. A luta apenas tinha 
comeado. Forou uma imagem em sua mente. Uma imagem ntida. Hoje meus vestidos com peles e camuras, os rostos manchados de preto com cortia queimada, fuligem 
e graxa, a bordo dos navios Dartmouth, Eleonor e Beaver. Homens comuns, lembrou-se, comerciantes, artesos e estudantes. Alguns, embriagados, outros, abstmios. 
A suspenso e destruio das arcas do detestvel ch. Os respingos agradveis quando caixas quebradas de ch atingiam a gua fria do porto de Boston, no embarcadouro 
de Griffin. Lembrou-se da madeira como as arcas descartadas tinham sido empilhadas na sujeira da mar baixa como montes de feno. 
        Ch que era mora para os peixes, pensou. Sim, todos tinham ficado alegres, mas continuavam resolutos. Determinados. Unidos. Precisariam ser todas essas coisas 
para lutar e vencer a guerra que muita gente nem percebia que j havia comeado.
        Quanto tempo fazia desde a noite gloriosa? Um dia? Dois?
        Tinha sido falta de sorte sua encontrar dois soldados britnicos embriagados quando o dia estava amanhecendo. Eles o reconheceram. Seu rosto, seu nome e 
sua poltica eram famosos em Boston. E ele nunca fizera nada para ser benquisto pela milcia britnica.
        Talvez, a inteno dos soldados tivesse sido apenas molest-lo um pouco. Talvez no tivessem falado srio sobre cumprir a ameaa de prend-lo... com acusaes 
que sequer deixaram claras. Mas quando um deles puxara a espada, a arma de MacGregor praticamente saltara em sua mo. A luta fora breve... e tola, tinha de admitir 
agora. Ainda estava incerto se havia matado ou apenas ferido o soldado impetuoso. Porm, seu companheiro fora morto diante de seus olhos quando sacara a arma.
        Embora MacGregor tivesse sido rpido para montar e cavalgar, a bala do arcabuz lhe atingira o ombro.
        Podia senti-la agora, pulsando contra os msculos. Apesar do resto de seu corpo estar dormente, podia sentir aquele pequeno e agonizante ponto de calor. 
Foi ento que sua cabea tambm ficou dormente e no sentiu mais nada.
        Quando acordou, sentia muita dor. Estava deitado sobre um cobertor de neve, o rosto para cima, de modo que podia ver, de forma turva, um redemoinho de flocos 
brancos contra o cu acinzentado. Tinha cado do cavalo. No estava to perto da morte que deixasse de se sentir embaraado com a situao. Com esforo, ajoelhou-se. 
A gua esperava pacientemente a seu lado, olhando-o com uma expresso de surpresa.
        - Vou confiar em voc para guardar segredo disso, moa. - Foi o som fraco de sua prpria voz que lhe despertou a primeira onda de medo. Cerrando os dentes, 
alcanou as rdeas, e levantou-se, trmulo. - Abrigo.
        Ele balanou, empalideceu, e soube que no conseguiria encontrar foras para montar. Segurando-se com firmeza, fez um som para instigar a gua, e deixou-a 
puxar seu corpo cansado.
        Passo a passo, lutou contra o desejo de desmoronar e deixar o frio lev-lo. Diziam que havia pouco sofrimento em congelar at a morte. Era como um sono, 
um sono frio e sem dor.
        E como podiam saber a menos que vivessem para contar a histria? Ele riu com o pensamento, mas a risada se transformou numa tosse que o enfraqueceu ainda 
mais.
        Tempo, distncia, direo, eram coisas absolutamente perdidas para ele. Tentou pensar na famlia, no carinho deles. Seus pais, irmos e irms na Esccia. 
Amada Esccia, onde eles lutavam para manter a esperana viva. Suas tias, tios e primos na Virgnia, onde trabalhavam pelo direito de uma nova vida e uma nova terra. 
E ele encontrava-se em algum lugar no meio disso, dividido entre o amor pelo antigo e a fascinao pelo novo.
        Mas em cada terra havia um inimigo. Pensar nisso lhe dava foras. Os britnicos. Malditos. Eles tinham condenado seu nome e assassinado seu povo. Agora estavam 
levando suas mos gananciosas para o outro lado do oceano, de modo que o rei ingls meio louco pudesse impor suas leis absurdas e coletar impostos.
        Ele tropeou, e quase soltou as rdeas. Por um momento, ele descansou a cabea no pescoo da gua, os olhos fechados. O rosto do pai surgiu em sua mente, 
os olhos ainda brilhando com orgulho.
        - Construa um lugar para si mesmo - ele dissera ao filho. - Jamais esquea, voc  um MacGregor.
        No, ele no esqueceria.
        Cuidadosamente, abriu os olhos. Ento viu, atravs da neve que caa, a forma de uma construo. Piscou, esfregou os olhos cansados com a mo livre. A forma 
permanecia, acinzentada e indistinta, mas real.
        - Bem, moa. - Ele inclinou-se pesadamente contra a gua. - Talvez este no seja o dia de morrer, afinal de contas.
        Passo a passo, dirigiu-se para a construo. Era um estbulo, grande, feito de toras de pinho. Seus dedos dormentes abriram o trinco. Os joelhos ameaaram 
dobrar. Ento, estava do lado de dentro, com o cheiro e o calor abenoado dos animais.
        Estava escuro. Ele moveu-se por instinto em direo a um monte de feno para a baia de uma vaca malhada. O animal protestou com mugido nervoso.
        Foi o ltimo som que ele ouviu.
        
        Alanna vestiu sua capa de l. O fogo na lareira da cozinha queimava brilhantemente, e tinha o aroma leve e alegre de ma. Era uma coisa simples e normal, 
mas a agradava. Acordara muito bem-humorada. Devia ser a neve, imaginou, embora seu pai tivesse sado da cama reclamando do tempo. Ela adorava a pureza da neve, 
o modo como aderia aos galhos das rvores, que seus pais e irmos ainda teriam de limpar.
        A neve j estava diminuindo, e dentro de uma hora o caminho para o estbulo estaria cheio de pegadas, das suas inclusive. Havia animais para cuidar, ovos 
para recolher, arreios para reparar e madeira para cortar. Mas, por enquanto, por apenas um momento olhou pela pequena janela e apreciou o cenrio.
        Se seu pai a pegasse ali, iria menear a cabea e cham-la de sonhadora. Isso seria dito de maneira rude, no com raiva, pensou ela, mas com tristeza. Sua 
me tinha sido uma sonhadora mas falecera antes que seu sonho de possuir uma casa e uma terra fosse completamente realizado.
        Cyrus Murphy no era um homem duro, pensou Alanna agora. No fora sempre assim. Fora a morte, ou melhor, as muitas mortes o que o tornaram rude e espinhoso. 
Perdera duas crianas e, mais tarde, a amada me delas. Mais tarde, outro filho, o lindo e jovem Rory fora levado pela guerra contra os franceses.
        Seu prprio marido, pensou Alanna, o doce Michael Flynn morrera de forma menos dramtica, mas fora levado de qualquer maneira.
        Ela no pensava em Michael com freqncia. Afinal, tinha sido esposa por apenas trs meses, e j estava viva h trs anos. Ele fora um homem bom e amvel, 
e Alanna ressentiam-se do fato de no terem tido a chance de construir uma famlia.
        Mas aquele no era um dia para velhas tristezas, lembrou a si mesma. Puxando o capuz do casaco para a cabea, saiu. Hoje era um dia de promessas, de comeos. 
Faltava pouco tempo para o Natal. Estava determinada a fazer uma festa alegre.
        J havia passado horas em sua roda de fiar e no tear. Tecera cachecis, luvas e gorros novos para seus irmos. Azul para Johnny e vermelho para Brian. Para 
seu pai, ela pintara uma miniatura da me. E havia pago muitas moedas ao arteso local que trabalhava com prata por uma moldura.
        Sabia que suas escolhas agradariam. Assim como a refeio que planejava para a festa de Natal. Era tudo que lhe importava... manter sua famlia unida, feliz 
e segura.
        A porta do estbulo estava destrancada. Com um murmrio de irritao, ela a abriu. Era bom que tivesse sido ela a descobrir isso, pensou, em vez de seu pai, 
ou seu irmo, Brian, que teriam paraguejado um bom tempo.
        Assim que entrou no estbulo, tirou o capuz e se dirigiu automaticamente para os baldes de madeira que ficavam pendurados ao lado da porta. Porque estava 
quase escuro, pegou um lampio e acendeu-o cuidadosamente.
        Quando terminasse a ordenha, Brian e Johnny chegariam para alimentar o gado e limpar as baias. Ento, Alanna recolheria os ovos e prepararia o caf-da-manh 
para seus homens.
        Ela comeou a cantarolar enquanto descia o grande corredor para o centro do estbulo. Ento, parou alarmada quando viu uma gua cansada ao lado da baia da 
vaca.
        - Jesus amado! - Ela ps uma das mos sobre o corao. A gua soprou um cumprimento e se moveu.
        Se havia um cavalo, havia um cavaleiro. Aos 20 anos, Alanna no era to jovem ou to ingnua para acreditar que todos os viajantes eram amigveis e no significavam 
perigo para uma mulher sozinha. Ela podia ter se virado e corrido, gritado para chamar o pai e os irmos. Todavia, embora tivesse assumido o nome de Michael Flynn, 
com o casamento, tinha nascido uma Murphy. E um Murphy protegia os seus.
        Erguendo a cabea, seguiu em frente.
        - Quero saber seu nome e o que voc faz - disse ela. Somente o cavalo respondeu. Quando estava perto o bastante, tocou o nariz da gua. - Que tipo de dono 
voc tem, que a deixa molhada e selada? - Furiosa por ver o estado do animal, deixou os baldes no cho e levantou o tom de voz: - Muito bem, saia, quem estiver a. 
Voc est na terra dos Murphy.
        As vacas mugiram.
        Com uma das mos no quadril, ela olhou ao redor.
        - Ningum est lhe negando abrigo da tempestade - continuou. - Ou um caf-da-manh decente. Mas quero falar com voc por deixar seu cavalo desse jeito.
        Como ainda no houvesse resposta, a raiva de Alanna aumentou. Resmungando, comeou a tirar a sela da gua. E quase tropeou num par de botas.
        Botas boas, pensou, olhando para baixo. Elas apareciam pela entrada da baia da vaca, o couro marrom repleto de neve e lama. Ela se aproximou para ver as 
botas atadas a um par de pernas longas e musculosas em cala de camura.
        Quase um metro de pernas, pensou Alanna, mordiscando o lbio. E gloriosamente msculas na cala frouxa. Aproximando-se mais, viu quadris e cintura estreitos, 
e um torso coberto por um casaco de pele justo.
        A silhueta de homem mais bonita que j vira. E, uma vez que ele escolhera o seu estbulo para dormir, ela tinha todo o direito de olhar. O homem era grande, 
decidiu, inclinando a cabea e erguendo o lampio. Mais alto do que seus dois irmos. Alanna deu mais um passo  frente, querendo ver o resto dele.
        Os cabelos eram escuros. No castanhos, percebeu, estreitando os olhos, mas de um vermelho profundo, como o cavalo castrado de Brian. Ele no usava barba, 
mas havia um restolho no queixo e ao redor da boca carnuda e bonita. Sim, o homem era bonito, concluiu com apreciao feminina. O rosto forte parecia de um aristocrata, 
com sobrancelhas altas e feies esculpidas.
        O tipo de rosto que fazia o corao de uma mulher palpitar, ela tinha certeza. Mas no estava interessada em palpitaes ou flertes. Queria que o homem se 
levantasse e sasse de seu caminho, para que pudesse fazer a ordenha.
        - Senhor. - Ela cutucou-lhe a bota com a ponta da sua. Nenhuma resposta. Colocando as mos nos quadris, decidiu que ele estava embriagado. O que mais faria 
um homem dormir como se estivesse morto? - Acorde, vagabundo. No posso ordenhar com voc a. - Ela chutou-lhe a perna, no muito gentilmente, e ouviu um gemido 
fraco em resposta. - Certo, rapaz. - Alanna abaixou-se e deu-lhe uma boa sacudida. Estava preparada para sentir o cheio de bebida alcolica, mas, em vez disso, um 
forte odor de sangue lhe chegou s narinas.
        Esquecendo a raiva, ajoelhou-se para, cuidadosamente, afastar o casaco de pele dos ombros dele. Quase perdeu o flego quando viu a grande mancha ao longo 
da parte frontal da camisa. Seus dedos ficaram sujos de sangue quando sentiu a pulsao dele.
        - Bem, voc ainda est vivo - murmurou ela. - Com a ajuda de Deus e um pouco de sorte poderemos mant-lo assim.
        Antes que ela pudesse se levantar para chamar seus irmos, a mo grande se fechou sobre seu pulso. Os olhos dele estavam abertos agora. Eram verdes, levemente 
azulados. Como o mar. Mas havia dor neles. A compaixo a fez inclinar-se para mais perto a fim de oferecer conforto.
        Ento, a mo de Alanna enterrou-se no feno quando ele tirou seu equilbrio, de modo que ficou quase deitada em cima do homem. Teve a rpida percepo de 
um corpo firme e de um calor intenso. Seu tom de indignao foi abafado contra os lbios dele. O beijo foi breve, mas surpreendentemente firme antes que ele deitasse 
a cabea de novo e lhe desse um rpido sorriso arrogante.
        - Bem, no estou morto, pelo menos. Lbios como os seus no teriam lugar no inferno.
        No que se referia a elogios, ela j havia recebido melhores. Antes que pudesse lhe dizer isso, ele desmaiou.
        
        
        
     Dois
     
        
        Ele flutuava num mar turbulento que alternava entre dor e alvio. Um usque de boa qualidade aquecia-lhe a barriga e lhe entorpecia os sentidos. Todavia, 
sobre isso, recordava-se de uma agonia abrasadora, uma faca incandescente penetrando sua carne. Maldies chovendo sobre sua cabea. Uma mo quente segurando a sua, 
dando-lhe conforto, contendo-o. Panos abenoadamente frios sobre suas sobrancelhas febris. Um lquido horroroso sendo despejado em sua garganta.
        Ele gritou. Tinha gritado? Algum viera acalm-lo, com mos e voz suaves e aroma de lavanda? Havia msica l, a voz de uma mulher, baixa e adorvel? Cantando 
em gals? Da Esccia? Ele estava na Esccia? Mas, no, quando a voz lhe falou, no possua o familiar sotaque escocs, mas o sotaque sonhador da Irlanda.
        O navio. O navio tinha sido desviado e o levara para o Sul em vez de para casa? Lembrava-se de um navio. Mas este estivera no porto. Homens rindo entre si, 
os rostos manchados de preto e pintados. Machados balanando. O ch. O maldito ch.
        Ah, sim, ele lembrava. Havia algum conforto nisso. Eles tinham feito seu protesto.
        Ele levara um tiro. No naquele momento, mas depois. Ao amanhecer. Um erro, um erro tolo.
        Em seguida, houvera neve e dor. Tinha acordado para ver o rosto de uma mulher. Uma linda mulher. Um homem podia pedir pouco mais do que acordar para uma 
linda mulher, tanto fazia se acordasse vivo ou morto. O pensamento o fez sorrir quando abriu os olhos pesados. No que dizia respeito a sonhos, aquele tinha suas 
virtudes.
        Ento, ele a viu sentada, trabalhando no tear perto de uma janela, onde o sol forte batia-lhe nos cabelos, cabelos to negros quanto as asas de qualquer 
ave de rapina que voasse na floresta. Usava um vestido liso de l azul-marinho, com avental branco por cima. Ele podia ver que ela era delgada, podia notar as mos 
graciosas que teciam. Com um rudo rtmico, criava um padro vermelho entremeado  l verde-escura.
        Ela cantava enquanto trabalhava, e ele reconheceu a voz. Era a mesma que o confortara em seus sonhos perturbados de calor e frio. Podia ver-lhe o perfil. 
A pele clara levemente rosada, a curva suave que levava  boca grande e generosa, com uma covinha ao lado, o nariz pequeno que parecia inclinar-se um pouquinho na 
ponta.
        Pacfica. Apenas observ-la lhe dava uma sensao de paz e o tentava a fechar os olhos e dormir novamente. Mas queria v-la, absorver-lhe a beleza. E precisava 
que ela lhe dissesse onde ele estava.
        No momento em que se mexeu, Alanna ergueu a cabea. Virou-se para olh-lo. Ele pde ver-lhe os olhos agora... de um azul to rico e profundo quanto safiras. 
Enquanto a estudava, lutando a fim de conseguir foras para falar, ela se levantou, alisou a saia e se aproximou.
        A mo delicada era fria na sobrancelha dele, e familiar. De maneira breve, mas com mos infinitamente gentis, ela verificou sua atadura.
        - Ento, voc se juntou aos vivos? - perguntou Alanna, enquanto ia at uma mesa ali perto e despejava alguma coisa em uma xcara de peltre.
        - Voc sabe a resposta para isso melhor do que eu - disse ele. Rindo, Alanna levou a xcara aos lbios dele. O aroma era familiar, assim como o gosto horrvel. 
- O que  essa coisa?
        - O que  bom para voc - replicou ela, e colocou o lquido em sua boca de modo rude. Quando o sentiu olhando-a, Alanna riu novamente. - Voc cuspiu em mim 
tantas vezes que aprendi a no correr o risco.
        - Quanto tempo?
        - Quanto tempo voc est conosco? - Ela tocou-lhe a testa de novo. A febre tinha cedido durante a ltima longa noite, e o gesto de Alanna era apenas hbito. 
- Dois dias. Hoje  20 de dezembro.
        - Minha gua?
        - A gua est bem. - Ela assentiu, satisfeita que ele estivesse pensando no animal. -  melhor dormir mais um pouco. Vou lhe preparar um caldo de carne para 
fortalec-lo, senhor...
        - MacGregor - respondeu ele. - Ian MacGregor.
        - Descanse ento, sr. MacGregor.
        Mas ele alcanou-lhe a mo. To pequena, pensou. Entretanto, to competente...
        - Seu nome?
        - Alanna Flynn. - Ele possua uma boa mo, pensou ela, no to bruta quanto as de seu pai ou de seus irmos, porm forte. - Voc  bem-vindo aqui at que 
se recupere.
        - Obrigado. - Ian manteve a mo delicada na sua, brincando com os dedos de um jeito que, se no tivesse acabado de sair de uma febre, teria feito Alanna 
pensar que estava flertando com ela. Ento, lembrou-se de que ele a beijara quando estivera sangrando,  beira da morte no estbulo, e cuidadosamente puxou a mo. 
Ele sorriu. No havia outra maneira de descrever o rpido curvar de lbios.
        - Estou em dbito com voc, srta. Flynn.
        - Sim, est. - Ela se levantou, cheia de dignidade. - E  sra. Flynn.
        Ian no podia se lembrar de ter se sentido mais desapontado. No que se importasse em flertar com mulheres casadas, se elas estivessem de acordo. Mas nunca 
teria considerado levar o flerte mais longe do que alguns sorrisos e palavras doces com a mulher de um outro homem. Era uma pena, pensou enquanto estudava Alanna 
Flynn. Uma grande pena.
        - Estou grato a voc, sra. Flynn, e a seu marido.
        - Agradea ao meu pai. - Ela disse isso com um sorriso que fez a covinha se aprofundar. Ele era malandro, Alanna no tinha dvida quanto a isso. Mas tambm 
estava fraco e, no momento, sob seus cuidados. - Esta  a casa dele, e meu pai deve voltar em breve. - Com as mos nos quadris, estudou-o. A cor do rosto estava 
melhor, notou, embo1,41ra um corte de cabelo pudesse cair bem.         
        E barbear-se no lhe faria mal. Apesar disso, era um homem de excelente aparncia. E como era suficientemente feminina para reconhecer o brilho nos olhos 
que a fitavam agora, se manteria alerta.                                                                                                  
        - Se voc no vai dormir,  melhor comer. Vou buscar o caldo de carne.       
        Alanna o deixou para ir  cozinha, os saltos soando levemente no piso de tbuas. Sozinho, Ian ficou deitado e deixou os olhos vagarem ao redor do quarto. 
O pai de Alanna Flynn tinha construdo a casa sozinho, pensou. As janelas eram envidraadas, as paredes pintadas de branco. A cama onde se encontrava estava perto 
da lareira acesa, cujas pedras brilhavam de to limpas. Acima o consolo da lareira era feito da mesma pedra nativa. Sobre ela, velas fixadas em um par de castiais 
de porcelana chinesa. Havia duas peas de caar aves acima de tudo, e uma boa fecharia de pederneira, tambm.
        O tear ficava perto da janela, e no canto havia uma roda de fiar. No tinha uma nica mancha de poeira na moblia enfeitada com algumas almofadas bordadas. 
Havia um aroma... mas assadas e carnes temperadas. Uma casa confortvel, pensou ele, construda num lugar deserto. Um homem tinha de respeitar um outro que podia 
fazer sua marca daquela forma. E um homem teria de lutar para manter o que havia construdo.
        Valia a pena lutar por certas coisas. Valia a pena morrer por certas coisas. Por sua terra. Pelo seu nome. Pela sua mulher. Sua liberdade. Ian estava mais 
do que pronto para levantar sua espada. Quando tentou sentar-se, o quarto aconchegante pareceu girar.
        - No  um tpico homem? - Alanna voltou com uma tigela de sopa. - Desfazendo todo o meu trabalho. Fique deitado quieto, voc esta to fraco quanto um beb, 
e duas vezes mais irritado.
        - Sra. Flynn...
        - Coma primeiro, fale depois.
        Sem defesa ele engoliu a primeira colherada da sopa que ela lhe ps na boca.
        - O caldo de carne est gostoso, mas posso me alimentar sozinho.
        - E derramar nos lenis limpos? No, obrigada. Voc precisa de sua fora. - Ela o tranqilizou como faria com seus prprios irmos. - Perdeu muito sangue 
antes de chegar at ns. E mais ainda quando a bala foi removida. - Alanna falava enquanto lhe dava a sopa, e sua mo no tremia. Mas o corao, sim.
        Sentindo o aroma das ervas e a fragrncia de lavanda dela, Ian comeou a pensar que ser alimentado tinha suas vantagens.
        - Se no estivesse to frio - continuou ela -, voc teria sangrado mais rapidamente e morrido na floresta.
        - Ento, tenho de agradecer tanto  natureza quanto a voc. Ela lhe lanou um olhar calculado.
        - Dizem que Deus trabalha de maneiras misteriosas. Aparentemente, ele decidiu mant-lo vivo depois que voc fez de tudo para morrer.
        - E me colocou nas mos de um vizinho. - Ele sorriu de novo charmosamente. - Nunca estive na Irlanda, mas ouvi dizer que  um lindo pas.
        - Assim diz meu pai. Eu nasci aqui.
        - Mas seu sotaque  irlands.
        - E o seu  escocs.
        - Faz cinco anos desde que vi a Esccia pela ltima vez. - Uma sombra cruzou os olhos dele e desapareceu. - Passei um tempo em Boston. Eu me formei l e 
tenho amigos.
        - Formou-se. - Pelo modo como ele falava, Alanna j tinha reconhecido que era estudado, e o invejava por isso.
        - Em Harvard. - lan deu um pequeno sorriso.
        - Entendo. - E ela o invejou ainda mais. Se sua me tivesse vivido... Ah, mas sua me morrera, e Alanna  nunca tivera mais do que uma cartilha para aprender 
a ler e a escrever. - Voc est longe de Boston agora. Um dia cavalgando. Tem famlia ou amigos que podem estar preocupados?
        - No. Ningum que se preocuparia. - Ele queria toc-la. Era errado, contra seu prprio cdigo de honra. Mas queria ver se o rosto dela era to maravilhosamente 
suave quanto parecia. Se os cabelos seriam espessos e pesados. Se a boca seria to doce quanto tudo indicava.
        Alanna ergueu os clios, e os olhos, claros e frios, encontraram os seus. Por um momento, lan pde ver apenas o rosto bonito, inclinando-se sobre o dele. 
Ento, lembrou-se. J tinha provado aqueles lbios uma vez.
        Apesar de suas melhores intenes, no pde evitar que os olhos fossem para aqueles lbios  se demorassem l. Quando ela demonstrou estar tensa, lan levantou 
os olhos. No havia um pedido de desculpas neles, mas divertimento.
        - Devo lhe pedir perdo, sra. Flynn. No era eu mesmo quando voc me encontrou no estbulo.
        - Voltou a ser voc mesmo rapidamente - devolveu ela, e o fez rir at recuar de dor.
        - Ento, eu lhe peo perdo mais uma vez, e espero que seu marido no me ponha para fora.
        - H pouco risco de isso acontecer. Ele est morto a trs anos.
        lan olhou para cima imediatamente, mas ela apenas ps mais uma colherada do caldo na sua boca. Que Deus o castigasse, mas no podia dizer que sentia muito 
em saber que Flynn tinha ido encontrar seu Criador. Afinal de contas, racionalizou lan, nem conhecera o homem. E que melhor maneira de passar um dia ou dois se recuperando 
no colo de uma jovem viva linda?
        Alanna sentiu o cheiro do desejo da mesma forma que um caador sente o cheiro da caa, e se levantou, ficando fora de alcance.
        - Descanse agora.
        - Sinto como se eu j tivesse descansado semanas. - Deus, ela era adorvel, cheia de curvas e cheia de vida. lan tentou seu sorriso mais intrigante. - Posso 
lhe pedir que me ajude a sentar em uma cadeira? Eu me sentiria mais eu mesmo se pudesse me sentar, talvez olhar pela janela.
        Ela hesitou no porque estivesse com medo de no poder mov-lo. Considerava-se forte como um touro, mas no confiava no brilho que vira nos olhos dele.
        - Tudo bem, ento, mas voc vai se apoiar em mim e ir devagar.    
        - Com prazer. - Ele pegou-lhe a mo e a levou aos lbios. Antes que ela pudesse recuar, lan virou-lhe a mo e roou os lbios em sua palma, como nenhum homem 
jamais fizera. O corao de Alanna disparou violentamente. - Voc tem olhos da cor de jias que vi uma vez em volta do pescoo da rainha da Frana. Safras - murmurou 
ele. - Uma palavra sedutora.
        Ela no se moveu. No podia. Nunca em sua vida um homem a olhara daquela maneira. Sentiu um calor se espalhando do estmago para os seios subitamente enrijecidos, 
subindo para o pescoo, onde a pulsao estava acelerada, e para o rosto. Ento, ele sorriu, aquele sorriso rpido e charmoso. Ela puxou a mo.
        - Voc  um malandro, sr. MacGregor.
        - Sim, sra. Flynn. Mas isso no torna minhas palavras menos verdadeiras. Voc  linda. Assim como seu nome. Alanna. - Ele demorou-se em cada slaba.
        Ela era esperta o bastante para no se deixar levar por elogios. Mas o centro de sua palma ainda queimava.
        -  o meu nome, e voc vai esperar at que eu pea para us-lo. - Foi com alivio que ela ouviu os sons do lado de fora da casa. Arqueou as sobrancelhas quando 
percebeu que lan tambm ouvira e ficava alerta. - So meu pai e meus irmos. Se voc ainda quiser se sentar perto da janela, eles o ajudaro. - Dizendo isso, foi 
para a porta.
        Eles estariam com frio e com fome, pensou Alanna, e comeriam as tortas de carne e de maa que ela fizera sem pensar no tempo e cuidado que tinham sido necessrios 
para prepar-las. Seu pai s reclamava do que no era feito. Johnny estaria pensando em quo rapidamente poderia ir para a vila a fim de cortejar a jovem Mary Wyeth. 
Brian enfiaria o nariz em um de seus livros e leria perto da lareira at adormecer.
        Eles entraram, trazendo frio e neve derretida, assim como vozes masculinas em tom alto.
        lan relaxou quando notou que era realmente a famlia dela. Talvez fosse tolice pensar que os britnicos o seguiriam todo aquele caminho atravs da neve, 
mas no era um homem de baixar a guarda. Viu trs homens... ou dois homens e um garoto quase crescido. O homem mais velho era s um pouco mais alto do que Alanna, 
com uma constituio robusta. O rosto era avermelhado e endurecido por anos de vento e clima ruim, os olhos, uma verso mais plida dos da filha. Ele tirou o casaco 
de capuz, revelando cabelos finos e arenosos.
        O filho mais velho se parecia com o pai, porm, era mais alto e menos robusto. Havia em suas feies calma e pacincia, que faltavam no pai.
        O mais novo era quase igual ao irmo, mas ainda possua o orvalho da juventude na face. Tinha o mesmo tom de pele rosado da irm.
        - Nosso hspede est acordado - anunciou Alanna, e trs pares de olhos voltaram-se para ele. - lan MacGregor este  meu pai, Cyrus Murphy, e meus irmos, 
John e Brian.
        - MacGregor - disse Cyrus numa voz estrondosa. - Um nome estranho.
        Apesar da dor, lan tensionou o corpo e posicionou-se o mais ereto possvel.
        - Um nome do qual me orgulho.
        - Um homem deve orgulhar-se de seu nome - murmurou Cyrus enquanto estudava lan. - E tudo com que ele nasce. Fico satisfeito que voc decidiu viver, uma vez 
que o solo est congelado e no poderamos enterr-lo at a primavera.
        - Foi um alvio para mim, tambm. Satisfeito com a resposta, Cyrus assentiu.
        - Vamos lavar as mos para o jantar.
        - Johnny. - Alanna deteve o irmo, segurando-lhe o brao. - Pode ajudar o sr. MacGregor a se sentar na cadeira perto da janela antes de ir comer?
        Com um breve sorriso, Johnny olhou para lan.
        - Voc pesa como chumbo, MacGregor. No foi fcil traz-lo para dentro de casa. D-me uma ajuda aqui, Brian.
        - Obrigado. - lan reprimiu um gemido quando ergueu os braos sobre os dois pares de ombros. Amaldioando as pernas fracas, jurou a si mesmo que estaria em 
p e andando no dia seguinte. Mas estava transpirando no momento que eles o acomodaram na cadeira.
        - Voc est indo muito bem para um homem que enganou a morte - disse Johnny, compreendendo bem a frustrao de outro homem que se encontrava doente.
        - Sinto como se tivesse bebido uma caixa de rum e depois sido arrastado pela tempestade para o mar.
        - Sim. - Johnny bateu-lhe no ombro de maneira amigvel. - Alanna o deixar bom. - Ele saiu a fim de lavar as mos para jantar, j sentindo o aroma de carne 
temperada.
        - Sr. MacGregor? - Brian parou diante dele. Havia tanto timidez quanto intensidade nos olhos do garoto. - Voc seria muito jovem para ter lutado na guerra 
de 1745? - Quando lan franziu o cenho, o garoto continuou, apressado: - Li tudo sobre isso, a Rebelio de Stuart e o formoso prncipe e todas as batalhas. Mas voc 
seria muito novo para ter lutado.
        - Nasci em 1746 - disse lan. - Durante a Batalha de Culloden. Meu pai lutou na rebelio. Meu av morreu nela.
        Os intensos olhos azuis se arregalaram.
        - Ento voc poderia me contar mais do que posso encontrar nos livros.
        - Sim. - lan sorriu. - Eu posso lhe contar mais.
        - Brian. - A voz de Alanna era enrgica. - O sr. MacGregor precisa descansar, e voc precisa comer.
        Brian deu um passo atrs, mas observou lan.
        - Podemos conversar depois do jantar se voc no estiver cansado.
        Ian ignorou os olhares tempestuosos de Alanna e sorriu para o garoto.
        - Eu gostaria disso.
        Alanna esperou at que Brian sasse do quarto. Quando falou, a fria quase descontrolada na voz surpreendeu lan.
        - No quero que voc encha a cabea dele com a glria de guerras, batalhas e causas.
        - Ele parece ter idade suficiente para decidir sobre o que quer conversar.
        -  Ele  um garoto ainda, e tem a cabea cheia de bobagens. - Com dedos tensos, ela dobrou o avental, mas os olhos permaneceram nivelados e intransigentes. 
- Posso no ser capaz de impedir meu irmo de ir  vila a fim de treinar para recruta, mas no quero conversa sobre guerra na minha casa.
        - Haver mais do que conversa, e logo - murmurou lan suavemente. -  tolice para um homem... e para uma mulher... no se preparar para isso.
        Ela empalideceu, mas manteve o queixo firme.
        - No haver guerra nesta casa - repetiu, e correu para a cozinha. 
      
      
      
     Trs
        
        
        Ian acordou cedo na manh seguinte para o sol mido de inverno e o delicioso cheiro de po assando. Por um momento, ficou deitado quieto, apreciando os sons 
e os aromas da manh. Atrs dele, o fogo queimava baixo e brilhante, enviando um calor confortvel. Da direo da cozinha vinha a voz de Alanna. Dessa vez, ela cantava 
em ingls. Por alguns minutos, ele ficou encantado demais com o som em si para prestar ateno na letra da msica. Assim que as palavras penetraram-lhe a mente, 
seus olhos se arregalaram, primeiro em surpresa, depois em divertimento.
        Era uma cantiga rude, mais apropriada para marinheiros ou homens embriagados do que para uma jovem viva de famlia.
        Ento, pensou, a adorvel Alanna tinha um senso de humor lascivo. Gostou ainda mais dela por isso, embora duvidasse que a moa tivesse cantado palavras obscenas 
to facilmente se soubesse que tinha uma audincia. Tentando se mover em silncio, lan tirou as pernas da cama. Foi necessrio algum esforo para se levantar, o 
que o deixou tonto, fraco e furioso, Teve de esperar, ofegando como um homem velho, uma grande mo pressionada contra a parede para apoio. Assim que recuperou o 
flego, tentou um passo  frente. O quarto pareceu girar, fazendo-o cerrar os dentes. O brao pulsou vigorosamente. Concentrando-se na dor, foi capaz de dar outro 
passo, e mais um, grato que ningum estivesse l para ver seu progresso pattico e enfadonho.
        Era pateticamente deprimente que uma pequena bala de ao pudesse ter atingido um MacGregor.
        O fato de que a bala tinha sido inglesa o pressionou a colocar um p na frente do outro. Suas pernas pareciam estar cheias de gua, e um suor frio lhe percorria 
as sobrancelhas e a nuca. Mas em seu corao havia um orgulho inabalvel. Se no tivesse sido impedido de lutar de novo, certamente lutaria. E no podia lutar at 
que conseguisse andar.
        Quando alcanou a porta da cozinha, exausto e suado do esforo, Alanna estava cantando uma cano de Natal. Ela parecia no ver inconsistncia em sussurrar 
sobre mulheres muito dadas em um momento e cantar sobre anjos no minuto seguinte.
        Para lan no importava o que ela cantava. Enquanto ficou parado ali, observando, ouvindo, sabia, com a mesma certeza que tinha de que um MacGregor sempre 
viveria nas Terras Altas, que a voz de Alanna iria segui-lo at o tmulo. Jamais se esqueceria daquela voz, da clareza, dos tons ricos, da pequena rouquido que 
o fazia imagin-la com os cabelos soltos e espalhados sobre um travesseiro.
        O travesseiro dele, percebeu com um sobressalto interior. Era l que a queria, sem sombra de dvida, e com tanta fora que quase podia sentir os cachos sedosos 
em seus dedos.
        A maior parte daqueles cachos escuros estava embaixo de um gorro agora. Isso devia dar-lhe uma aparncia recatada. Contudo, algumas mechas escapavam, para 
se aninharem... de maneira sedutora, pensou ele... ao longo da nuca delicada. Ele podia facilmente se imaginar trilhando os dedos ali tambm. Sentir a pele sedosa 
esquentar e o corpo se mover. Contra o seu.
        Ela seria to gil na cama quanto era no fogo? Talvez no estivesse to fraco, afinal, refletiu lan, se cada vez que via aquela mulher seu corpo comeava 
a pulsar, e a mente a viajar por um caminho particular. Se no temesse cair com o rosto no cho e sentir-se mortificado, teria atravessado o cmodo, virado-a para 
si, puxado-a para seus braos e lhe roubado um beijo. Em vez disso, aguardou, esperanosamente, que suas pernas se fortalecessem.
        Ela misturou um punhado de farinha enquanto alguma outra coisa assava no forno. Ele podia ver as mos pequenas e capazes pressionarem e moldarem a massa. 
Pacientemente. Incansavelmente. Enquanto a observava, sua mente rebelde encheu-se de pensamentos to luxuriosos que Ian gemeu.
        Alanna virou-se rapidamente, as mos ainda ao redor da bola de massa. Seus primeiros pensamentos a envergonharam, pois quando o viu preenchendo a entrada 
da porta, vestindo uma cala grossa e camisa totalmente aberta, perguntou-se como poderia seduzi-lo para que ele a beijasse novamente. Desgostosa consigo mesma, 
largou a massa e correu na direo dele. O rosto de lan estava plido, e o corpo comeava a balanar. Por experincia prvia, Alanna sabia que se ele atingisse o 
cho ela teria muito trabalho para lev-lo de volta  cama.
        - Agora, sr. MacGregor, apie-se em mim. - Uma vez que a cadeira estava mais perto, e ele pesava bastante, ela o conduziu para l antes de se dirigir a ele. 
- Tolo - murmurou mais com contentamento do que com raiva. - Mas, ento, descobri que quase todos os homens o so.  melhor que voc no tenha aberto seu ferimento 
de novo, pois acabei de lavar este piso e no quero sangue nele.
        - Sim, senhora. - Foi uma resposta fraca, mas a melhor que lan conseguiu quando o aroma dela nublou-lhe a mente e o rosto adorvel estava inclinado to perto 
do seu. Podia ter contado cada um dos sedosos clios pretos.
        - Voc s tinha de chamar, sabe? - disse ela, um pouco aliviada quando notou que a bandagem dele estava seca. E como teria agido com um de seus irmos, Alanna 
comeou a abotoar-lhe a camisa. lan forou-se a reprimir um outro gemido.
        - Eu precisava testar minhas pernas. - Seu sangue no estava apenas circulando agora, mas correndo nas veias. Como resultado, sua voz tinha um trao de rouquido. 
- No vou me recuperar se ficar deitado naquela cama.
        - Voc vai se levantar quando eu disser, no antes. - Com isso, ela se afastou e comeou a misturar alguma coisa numa xcara de peltre. lan sentiu o cheiro 
e recuou.
        - Eu no vou tomar mais essa coisa.
        - Voc vai beber e ficar agradecido. - Ela ps a xcara sobre a mesa -, se quiser mais alguma coisa em seu estmago.
        Ele a olhou de um jeito que sabia que faria homens adultos recuarem ou correrem para pedir cobertura. Alanna simplesmente colocou as mos nos quadris e o 
encarou de volta. lan estreitou os olhos. Ela fez o mesmo.
        - Voc est zangada porque conversei com o jovem Brian ontem  noite.
        Ela ergueu o queixo, apenas um pouquinho, mas foi o suficiente para dar-lhe uma arrogncia elegante.
        - E se voc tivesse descansado em vez de ficar tagarelando sobre a glria da guerra, no estaria to fraco e irritvel esta manh.
        - No estou irritvel ou fraco.
        Quando ela bufou, Ian desejou fervorosamente que tivesse foras para se levantar. Sim, ento a teria beijado at deix-la zonza, mostrando-lhe do que um 
MacGregor era feito.
        - Se estou irritado - comeou ele entre os dentes cerrados -  porque estou a ponto de morrer de fome.
        Alanna sorriu-lhe, satisfeita de manter a vantagem.
        - Ter seu caf-da-manh depois que esvaziar essa xcara, nem um momento antes. - Com um giro das saias rodadas, ela virou-se de volta para a massa de po.
        Enquanto ela estava de costas, Ian olhou ao redor,  procura de um lugar para jogar o lquido de gosto horroroso. No encontrando nenhum, olhou-a com uma 
carranca. Alanna sorriu. No tinha sido criada numa casa cheia de homens para nada. Sabia exatamente o que se passava na mente de Ian. Ele era teimoso, pensou, manuseando 
a massa. Mas ela tambm era.
        Comeou a cantarolar.
        Ian no mais pensou em beij-la, mas considerou seriamente estrangul-la. L estava ele, faminto como um urso, com o cheiro sedutor de po assando, e tudo 
que ela lhe dava era uma xcara de lquido detestvel.
        Ainda cantarolando, Alanna ps a massa de po numa vasilha para descansar e cobriu-a com um pano limpo. Facilmente ignorando-o, verificou o forno e decidiu 
que era hora de tirar o outro po. Quando colocou as fatias em uma prateleira para esfriar, o aroma abenoado encheu a cozinha.
        Ele tinha seu orgulho, pensou Ian. Mas de que serviria o orgulho se um homem morresse de fome? Ela pagaria por aquilo, prometeu a si mesmo quando ergueu 
a xcara e bebeu tudo.
        Alanna certificou-se de dar-lhe as costas quando sorriu. Sem dizer nada, esquentou a frigideira. Minutos depois, colocou um prato com ovos e grossas fatias 
de po diante dele. Ento, adicionou um pouco de manteiga e uma xcara de caf quente.
        Enquanto Ian comia, ela ocupou-se lavando a frigideira, limpando os balces para que nenhum gro de farinha permanecesse.
        Era uma mulher que apreciava suas manhs sem companhia, que gostava de ter o domnio de sua cozinha e das centenas de tarefas que esta exigia. Entretanto, 
no desgostava da presena de Ian l, embora tivesse cincia de que ele a observava com seus olhos da cor do mar. Estranhamente, o fato de ele se sentar  sua mesa 
e provar sua comida parecia natural, at mesmo familiar de alguma maneira.
        No, no desgostava da presena de Ian, mas tambm no podia relaxar com isso. O silncio que se instalou entre eles no mais parecia colorido pela irritao 
de cada um. Mas continha alguma outra coisa, algo que a deixava nervosa e fazia seu corao disparar.
        Necessitando mudar o clima, virou-se para ele. Ian estava realmente observando-a, notou. No com raiva, mas com... interesse. Era uma palavra fraca para 
o que via nos olhos verde-azulados, porm no havia riscos em us-la. De repente, Alanna sentiu a necessidade de se sentir segura.
        Os lbios dele se curvaram de um jeito que a informou que Ian seria um cavalheiro somente se e quando escolhesse ser.
        - Eu lhe agradeo, sra. Flynn, com toda sinceridade. Ser que eu poderia lhe implorar por mais uma xcara de caf?
        As palavras eram bastante adequadas, mas ela no confiava na expresso dos olhos de Ian. Manteve-se fora de alcance enquanto pegava a xcara.
        - Ch seria melhor para voc - murmurou ela quase para si mesma. - Mas no o bebemos nesta casa.
        - Em protesto?
        - Sim. No consumiremos o produto amaldioado at que o rei oua a voz da razo. Outras pessoas protestam de maneira mais tola e perigosa.
        Ele observou-a levantar o pote do fogo.
        - De que maneira? Alanna deu de ombros.
        - Johnny ouviu dizer que os Filhos da Liberdade decidiram destruir caixas de ch armazenadas em trs navios no porto de Boston. Eles se disfararam de indianos 
e subiram a bordo dos navios sob as armas de trs homens de guerra. Antes que a noite terminasse, haviam jogado todas as propriedades da Companhia Indiana na gua.
        - E voc acha que isso  bobagem?
        - Ousadia, certamente - disse ela com um outro movimento impaciente. - Talvez at mesmo herico, especialmente aos olhos de Brian. Mas bobagem, porque isso 
s far com que o rei imponha medidas ainda mais extremas. - Alanna colocou a xcara diante dele.
        - Ento, voc acredita que  melhor no fazer nada quando a injustia  entregue com uma mo generosa? Devemos simplesmente ficar sentados como ces treinados 
e aceitar a agresso?
        O sangue dos Murphy subiu  face dela.
        - Nenhum rei vive para sempre.
        - Ah, ento devemos esperar at que o luntico George morra em vez de lutarmos agora pelo que  certo?
        - J vimos guerra e desgostos demais nesta casa.
        - Haver mais guerra, Alanna, at que tudo seja resolvido.
        - Resolvido - repetiu ela enquanto ele calmamente dava um gole no caf. - Grudar penas em nossos cabelos e esmagar caixas de ch vai resolver alguma coisa? 
Resolvido como foi para as esposas e mes daqueles que caram em Lexington? E para qu? Para sepulturas e lgrimas?
        - Por liberdade - disse ele. - Por justia.
        - Palavras. - Ela meneou a cabea. - Palavras no morrem. Homens, sim.
        - Homens devem morrer, de idade avanada ou por uma espada. Voc pode acreditar que  melhor abaixar a cabea sob as correntes dos ingleses, repetidamente, 
at que nossas costas se quebrem? Ou devemos nos manter de cabea erguida e lutar pelo que  nosso por direito?
        Alanna sentiu um arrepio de medo quando observou o brilho nos olhos dele.
        - Voc fala como um rebelde, MacGregor.
        - Como um americano - corrigiu ele. - Como um Filho da Liberdade.
        - Eu devia ter adivinhado - murmurou ela. Pegou o prato dele, colocou-o de lado, ento, incapaz de se conter, aproximou-se novamente. - O naufrgio do ch 
vale sua vida?
        Distrado, lan tocou o ombro com a mo.
        - O tiro foi um erro de clculo - disse ele -, e nada que realmente estivesse relacionado com nossa pequena festa do ch.
        - Festa do ch. - Alanna olhou para o teto. - Bem caracterstico de um homem rir da revoluo, como se no fosse importante.
        - E caracterstico de uma mulher torcer as mos em desespero com o pensamento de uma luta.
        Ela o olhou fixamente.
        - Eu no toro minhas mos em desespero - declarou Alanna com preciso. - E certamente no derramaria uma lgrima por tipos como voc.
        O tom de lan mudou to rapidamente que ela piscou.
        - Ah, mas voc vai sentir minha falta quando eu partir.
        - V sonhando - murmurou ela, e reprimiu um sorriso. - Agora, volte para cama.
        - Duvido que eu esteja forte o bastante para fazer isso sozinho.
        Ela deu um suspiro, mas aproximou-se para lhe oferecer o ombro. Ele segurou-lhe o ombro, e o resto do corpo. Em um movimento rpido, ela estava no colo de 
lan. Amaldioou-o com tanta ousadia que ele teve de admir-la.
        - Diferenas polticas  parte, voc  muito bonita, Alanna - disse ele. - E descobri que faz muito tempo que no tenho uma mulher quente nos braos.
        - Filho de sapo! - exclamou ela e tentou sair do colo dele. lan recuou quando uma pontada de dor atingiu seu brao ferido.
        - Meu pai protestaria contra isso, querida.
        - No sou sua querida, seu rptil fingido.
        - Continue me insultando e ter minha ferida aberta e sangue sobre o cho limpo de sua cozinha.
        - Nada me daria mais prazer.
        Encantado, ele sorriu e segurou-lhe o queixo na mo.
        - Para algum que critica tanto os demnios da guerra, voc gosta muito de ver sangue.
        Ela o xingou at perder o flego. Seu irmo, John, tinha dito a pura verdade quando declarara que lan era forte como um touro. 
        No importava o quanto ela se contorcesse... encantando-o no processo... ele continuava prendendo-a.
        - Que voc pegue uma infeco - disse ela. - Voc, e todo seu cl.
        Ian pretendera faz-la pagar por t-lo obrigado a tomar o remdio horrvel. Apenas a puxou para seu colo a fim de causar-lhe desconforto. Ento, quando Alanna 
se debateu, achou que seria certo provoc-la um pouco e ceder ao prprio desejo. Com apenas um beijo. Um rpido beijo roubado. Afinal de contas, ela j estava ofegando.
        Na verdade, ele estava rindo quando lhe cobriu a boca com a sua. O ato comeou como uma brincadeira para provoc-la. Queria ouvir mais um conjunto de insultos 
da boca de Alanna quando o beijo terminasse.
        Mas a risada de Ian morreu rapidamente. O corpo dela que se contorcia ficou subitamente imvel.
        Um beijo rpido e amigvel, disse a si mesmo, mas sua cabea estava girando. Sentiu-se zonzo e fraco como ficara no momento em que colocara suas pernas bambas 
no cho.
        Isso no tinha nada a ver com o ferimento de diversos dias atrs. Apesar de haver dor, era uma dor doce que se espalhava por todo o seu corpo. Impressionado, 
imaginou se havia sido impedido de lutar novamente s para receber o presente daquele beijo perfeito.
        Alanna no lutou mais. Em seu corao de mulher, sabia que deveria. Todavia, o mesmo corao entendia que no podia. Seu corpo, rgido com o primeiro choque, 
tornou-se suave, receptivo.
        Ele era gentil e rude ao mesmo tempo, pensou. Os lbios eram frios e macios contra os seus, enquanto os plos da barba meio crescida roavam contra sua pele. 
Ela ouviu seu prprio gemido quando entreabriu os lbios, ento, provou-o na sua lngua. Pousou a mo no rosto dele, adicionando doura. Ele acariciou-lhe os cabelos, 
adicionando paixo.
        Por um momento fascinante, Ian aprofundou o beijo, levando-a para alm de onde ela conhecia e para onde apenas sonhara. Alanna provou o gosto rico da boca 
de Ian, sentiu os msculos slidos do peito largo. Ento, ouviu-o praguejando enquanto se afastava.
        Ian podia apenas olh-la. Enervava-o o fato de que podia fazer pouco mais do que isso. Tinha tirado o gorro dela a fim de tocar-lhe os cabelos e ver as mechas 
pretas carem sobre os ombros. Os olhos de Alanna estavam to grandes, to azuis contra a pele suavemente branca, que ele temeu que pudesse mergulhar neles.
        Aquela era uma mulher que podia faz-lo esquecer deveres, honra, justia. Aquela era uma mulher, percebeu, que poderia faz-lo rastejar por uma palavra amvel.
        Ele era um MacGregor. Nunca poderia se esquecer. Jamais poderia rastejar.
        - Peo perdo, senhora. - A voz dele era educada e to fria que Alanna sentiu o calor esvair-se de seu corpo. - Isso foi imperdovel.
        Cuidadosamente, ela se levantou. Com a viso nublada, procurou por seu gorro no cho. Encontrando-o, endireitou o corpo e olhou por sobre o ombro dele.
        - Eu lhe peo mais uma vez, MacGregor. Volte para sua cama. Alanna no moveu um nico msculo at que ele partiu. Ento, secou uma lgrima inoportuna e voltou 
ao trabalho. No pensaria nisso, prometeu a si mesma. No pensaria nele.
        Descontou sua frustrao na massa de po-recm-crescida.
        
        
        
     Quatro
        
        
        O Natal sempre tinha trazido muita alegria a Alanna. As preparaes lhe davam prazer... cozinhar, assar, costurar e limpar. Sua poltica sempre fora perdoar 
desconsideraes, pequenas ou grandes, no esprito de doar. Esperava ansiosamente colocar seu melhor vestido e ir  vila para a missa.
        Todavia,  medida que este Natal se aproximava, sentia-se deprimida e irritada. Com muita freqncia, pegava-se sendo grosseira com seus irmos, impaciente 
com seu pai. Tornava-se chorosa por causa de um bolo queimado, ento saa de casa furiosa quando Johnny tentava brincar com a situao.
        Sentada em uma pedra perto do rio de gelo, apoiou o queixo nas mos e refletiu.
        No era justo descontar seu nervosismo na famlia. Eles no tinham feito nada para merecer isso. Ela escolhera o caminho mais fcil, molestando-os, quando, 
na verdade, era Ian MacGregor quem queria castigar. Alanna chutou a neve.
        Oh, ele vinha mantendo distncia dela nos ltimos dois dias. O covarde. Agora que conseguia andar, esquivava-se no estbulo como o covarde que era. O pai 
de Alanna estava grato pela ajuda com os animais, mas ela sabia o motivo verdadeiro pelo qual MacGregor estava indo limpar baias e consertar arreios.
        Estava com medo dela. Seus lbios se curvaram num sorriso convencido. Sim, estava com medo que ela derrubasse toda sua fria sobre a cabea dele. E era isso 
que Alanna deveria fazer. Que tipo de homem beijava uma mulher at deix-la cega e surda para tudo, exceto para ele... ento, educadamente, retirava-se como se tivesse, 
sem querer, pisado no seu p.
        Ele no tinha o direito de beij-la... e menos ainda de depois ignorar o que havia acontecido.
        Bem, ela salvara a vida de Ian, pensou com uma inclinao da cabea. Essa era a verdade. Salvara-o, e ele pagara fazendo-a desej-lo como nenhuma mulher 
virtuosa deveria desejar um homem que no fosse seu marido.
        Mas Alanna o queria, e de maneira diferente do modo calmo e confortvel que tivera com Michael Flynn que no poderia descrev-la.
        Era loucura,  claro. Ian era um rebelde, e sempre seria. Tais homens faziam histrias e deixavam as esposas vivas. Tudo que Alanna queria era uma vida 
tranqila, com filhos e uma casa para cuidar. Queria um homem que dormisse a seu lado noite aps noite durante muitos anos. Um homem que ficasse contente em se sentar 
perto do fogo  noite e conversar com ela sobre o dia de trabalho.
        Esse homem no era Ian MacGregor. No, ela havia reconhecido nele a mesma determinao que vira nos olhos de Rory. Certas pessoas nasciam para ser guerreiro, 
e nada ou ningum podia influenci-los. Alguns homens eram destinados, antes de nascerem, a lutar por causas e morrer no campo de batalha. Ela havia visto essa determinao 
em Rory, seu irmo mais velho, e o que mais amara. E assim era Ian MacGregor, um homem que conhecia h poucos dias e nunca poderia amar.
        Enquanto ficava ali sentada, refletindo, uma sombra caiu sobre ela. Alanna tencionou o corpo, virou-se, conseguiu sorrir quando viu que era seu irmo mais 
novo, Brian.
        -  Voc est seguro - disse ela quando ele recuou um pouco.
        -  No estou mais com vontade de jogar ningum no rio.
        -  O bolo no ficou ruim depois que voc cortou as pontas queimadas.
        Ela estreitou os olhos para faz-lo rir.
        -  Posso mudar de idia e mandar voc nadar, afinal de contas. Mas Brian a conhecia. Quando o nervosismo de Alanna passava, ela raramente se irritava de 
novo.
        -  Voc se sentiria culpada se eu pegasse uma gripe, casse de cama e tivesse de cuidar de mim. Olhe, eu lhe trouxe um presente.
        - Ele ergueu uma coroa de flores que estivera escondendo atrs das costas. - Pensei que voc pudesse enfeit-la com fitas e pendurar na porta para o Natal.
        Ela a pegou e segurou-a gentilmente. Era feita de modo desajeitado, o que tornava o ato ainda mais doce. Brian era muito melhor com a cabea do que com as 
mos.
        -  Eu fui muito malvada?
        -  Sim. - Ele se sentou na neve aos ps dela. - Mas sei que voc no pode ficar de mau humor com o Natal quase chegando.
        -  No. - Ela sorriu para a coroa de flores. - Suponho que no
        -  Alanna, voc acha que lan vai ficar conosco para a ceia de Natal?
        O sorriso dela desapareceu enquanto franzia o cenho.
        -  Eu no saberia. Ele parece estar se recuperando bastante rpido.
        - Papai diz que  til t-lo por perto, mesmo que ele no seja fazendeiro. - Distrado, Brian comeou a fazer uma bola de neve. - E ele sabe tanta coisa. 
Imagine, ir para Harvard e ler todos aqueles livros.
        - Sim. - A concordncia de Alanna continha um desejo, para si mesma e para Brian. - Se tivermos uma boa colheita nos prximos anos, Brian, voc vai estudar 
fora. Eu lhe prometo.
        Ele no falou nada. Era alguma coisa que desejava do fundo da alma, e algo com o qu j tinha aceitado que acabaria vivendo.
        -  Ter lan aqui  quase to bom como estudar. Ele sabe coisas. Alanna comprimiu os lbios.
        -  Sim, tenho certeza que sabe.
        -  Ele me emprestou um livro que tinha no alforje, Henry V, de Shakespeare. O livro conta tudo sobre o Rei Harry e batalhas maravilhosas.
        Batalhas, pensou ela novamente. Parecia que os homens pensavam em pouca coisa, alm disso, desde o momento em que nasciam. Destemido pelo silncio da irm, 
Brian continuou com entusiasmo:
        -   melhor ainda ouvi-lo falar. lan me contou como a famlia dele lutou na Esccia. A tia se casou com um ingls, um jacobite, e eles fugiram para a Amrica 
depois que a revoluo estourou. Hoje em dia, possuem uma plantao na Virgnia e cultivam tabaco. Ele tem uma outra tia e um tio que vieram para a Amrica tambm, 
embora os pais de lan ainda morem na Esccia. Em Highlands. Parece um lugar maravilhoso, Alanna, com grandes penhascos e lagos profundos. E ele nasceu numa casa 
na floresta no dia em que o pai estava lutando contra os ingleses em Culloden.
        Ela pensou em uma mulher lutando contra as dores do parto e decidiu que tanto homens quanto mulheres lutavam suas prprias batalhas. As mulheres, pela vida, 
os homens, pela morte.
        - Depois da batalha - continuou Brian - os ingleses assassinaram os sobreviventes. - Ele estava olhando para o rio estreito coberto de gelo e no notou o 
olhar da irm sobre si. - Os feridos, os extraditados, mesmo as pessoas que estavam trabalhando em campos por perto. Eles perseguiram os rebeldes, cortando-os onde 
os encontravam. Alguns foram trancados em um estbulo e queimados vivos.
        - Bom Jesus. - Alanna nunca tinha prestado ateno em conversas sobre guerra, mas aquilo a manteve atenta, e horrorizada.
        - A famlia de lan morou em uma caverna enquanto os ingleses percorriam os morros atrs dos rebeldes. A tia de lan... aquela que tem a plantao... matou 
um soldado britnico. Atirou quando ele tentou assassinar o marido dela ferido.
        Alanna engoliu em seco.
        -  Acredito que o sr. MacGregor exagere.
        Brian voltou seus olhos profundos e intensos para a irm.
        - No - disse ele simplesmente. - Voc acha que isso vai acontecer aqui, Alanna, quando a rebelio comear?
        Ela apertou a coroa de flores com tanta fora que um espinho do ramo picou-a atravs da luva.
        -  No haver rebelio. Com o tempo, o governo vai se tornar mais razovel. E se lan MacGregor pensa diferente...
        - No  somente lan. At mesmo Johnny diz isso, e os homens do vilarejo. L se fala que a destruio do ch em Boston  apenas o comeo da revoluo que 
se tornou inevitvel desde o momento em que George III assumiu o trono. lan diz que  hora de aprisionar os britnicos e nos valorizarmos pelo que somos. Homens 
livres.
        - lan diz. - Alanna se levantou, as saias balanando. - Acho que lan fala demais. Leve a coroa de flores para casa, Brian. Vou pendur-la assim que estiver 
pronta.
        Brian viu a irm partir. Aparentemente, haveria pelo menos mais uma exploso de raiva antes que o mau humor dela passasse.
        Ian gostava de trabalhar no estbulo. Mais do que tudo, gostava mesmo era do fato de ser capaz de trabalhar, afinal. Seu brao e ombro ainda estavam rgidos, 
mas a dor tinha passado. E, graas a todos os santos, Alanna  no o obrigara a tomar nenhum de seus remdios caseiros naquele dia.
        Alanna.
        No queria pensar nela. Para afastar os pensamentos, ele ps de lado a sela que estava ensaboando e pegou uma escova. Cuidaria de seu cavalo a fim de prepar-lo 
para a jornada que vinha adiando h dois dias.
        Deveria partir, lembrou a si mesmo. Certamente, estava recuperado o suficiente para viajar curtas distncias. Embora no fosse sbio aparecer em Boston por 
um tempo, poderia viajar em etapas at Virgnia e passar algumas semanas com seus tios e primos.
        A carta que tinha pedido que Brian levasse  vila devia estar no navio, a caminho da Esccia e de sua famlia. Eles saberiam que ele estava vivo e bem... 
e que no poderia estar presente no Natal.
        Ian sabia que sua me iria chorar um pouco. Apesar de ter outros filhos, e netos, ficaria triste que seu primognito estaria longe quando eles se reunissem 
para a ceia de Natal.
        Ele podia ver a cena na mente... o fogo queimando, as velas brilhando. Podia sentir o rico aroma de comida, ouvir as risadas e as cantorias. De repente, 
sentiu uma dor que o deixou sem flego; enquanto sofria pela perda.
        Todavia, apesar de amar sua famlia, sabia que seu lugar era ali. A um mundo de distncia.
        Sim, havia trabalho a ser feito l, lembrou a si mesmo enquanto alisava o plo da gua. Havia homens que precisava contatar assim que soubesse que era seguro. 
Samuel Adams, John Avery, Paul Revere. E necessitava de notcias sobre o clima de Boston e de outras cidades, agora que o ato estava feito.
        Entretanto, demorava-se quando deveria ter ido embora. Sonhava acordado quando deveria estar conspirando. Ian tinha, de modo sensato, pensou, mantido distncia 
de Alanna. Mas em sua cabea ela estava sempre presente.
        - A est voc!
        E l estava ela, a respirao ofegante, as mos nos quadris. O capuz havia cado da cabea e os cabelos estavam soltos, muito pretos contra o tecido cinza 
do casaco.
        - Sim. - Porque suas mos tinham se apertado na escova, Ian fez um esforo para relaxar. - Aqui estou eu.
        - O que voc pretende, enchendo a cabea de um garoto com bobagens? Quer que ele levante um arcabuz sobre o ombro e desafio o primeiro soldado britnico 
que encontrar?
        - Suponho que voc esteja falando de Brian - disse Ian quando ela parou para respirar. - Mas quando algum deseja minha opinio, tenho de ser sincero e falar 
o que penso.
        - Voc nunca deveria ter vindo para c. - Agitada, ela comeou a andar de um lado para o outro. Os olhos estavam de um azul to ardente que ele imaginou 
se no queimariam a palha do cho. - Problemas, e nada alm de problemas desde o primeiro minuto que vi voc, estendido meio morto na baia. Se eu soubesse naquele 
dia o que aconteceria, poderia ter ignorado meu dever cristo e o deixado sangrar at morrer.
        Ele sorriu... no pde evitar... e comeou a falar, mas ela o interrompeu:
        -  Primeiro, quase me puxou para o feno com voc, beijando-me, embora tivesse uma bala no corpo. Ento, quase no momento em que abriu os olhos, estava beijando 
minha mo e dizendo que eu era linda.
        -  Eu devia ser aoitado - murmurou ele com um sorriso. - Imagine, dizer que voc  linda.
        -  Aoite  muito gentil para tipos como voc - devolveu ela com um meneio da cabea. - Ento, dois dias atrs, depois que lhe preparei o caf-da-manh... 
o que  mais que um homem como voc merece...
        -   Isso  verdade - concordou Ian.
        -  Fique quieto at eu terminar. Depois que lhe preparei o caf-da-manh, voc me puxou para seu colo como se eu fosse uma... uma...
        -  No est encontrando a palavra certa?
        -  Amante - disse ela e desafiou-o a rir. - E como o grande tolo que , voc me prendeu ali contra a minha vontade, e me beijou.
        -  E fui beijado de volta, querida. - Ele acariciou o pescoo do cavalo. - E muito bem beijado, a propsito.
        Alanna bufou de raiva e gaguejou.
        - Como voc ousa?
        -  Isso  difcil de responder, a menos que voc seja mais especfica. Se estiver me perguntando como ousei beij-la, terei de confessar que foi mais uma 
questo de no ter sido capaz de me conter. Voc tem uma boca que foi feita para beijar, Alanna.
        Ela sentiu o corpo, esquentar e comeou a andar novamente agora com pernas trmulas.
        -  Bem, voc superou seu desejo bem rapidamente.
        Ian arqueou uma sobrancelha. Ento, ela no estava nervosa por causa do beijo, mas pelo fato de que ele tinha parado. Olhando-a agora, na luz parca do estbulo, 
perguntou-se como conseguira parar. E soube que no conseguiria de novo.
        -  Se  a minha conteno que a perturba, querida...
        -  No me chame de querida. Nem agora, nem nunca. Divertido, ele reprimiu uma risada.
        -  Como quiser, Sra. Flynn. Como eu estava dizendo...
        -  Eu lhe disse para ficar quieto at que eu acabe. - Alanna parou para recuperar o flego. - Onde eu estava?
        -  Estvamos falando sobre beijar. - Com olhos brilhando, Ian se aproximou. - Por que eu no refresco sua memria?
        -  No se aproxime de mim - avisou ela, e pegou um forcado. - Eu estava usando isso simplesmente como uma referncia aos problemas que voc causou. Agora, 
acima de tudo, voc faz os olhos de Brian brilharem com o pensamento de uma revoluo. No permitirei isso, MacGregor. Ele  apenas um garoto.
        -  Se o garoto faz perguntas, eu lhe darei respostas verdadeiras.
        -  Fazendo-as soar romnticas e hericas. No quero v-lo em guerras feitas por outros e perd-lo como perdi meu irmo Rory.
        - No ser uma guerra feita por outros, Alanna. - Ele a circulou cuidadosamente, mantendo uma distncia segura do forcado.
        -  Quando a hora chegar, ns todos faremos isso, e venceremos a guerra.
        -  Voc pode poupar suas palavras.
        -  timo. - Rpido como um raio, Ian tirou-lhe o forcado da mo livrou-se dele e puxou-a contra seu corpo. - Estou cansado de conversa.
        Quando a beijou dessa vez, estava preparado para o abalo que o beijo causaria. No foi menos devastador ou menos excitante. O rosto de Alanna estava frio 
e Ian usou os lbios para aquec-lo, deslizando-os pela pele macia at que sentiu ambos comearem a tremer. Ento, entrelaou uma das mos nos cabelos pretos e segurou-lhe 
a nuca. Seu outro brao a pressionava contra si.
        -  Pelo amor de Deus, me beije de volta, Alanna - murmurou ele contra a boca de Alanna. Seus olhos estavam abertos e fixos nela. - Vou enlouquecer se voc 
no me beijar e enlouquecer se voc me beijar.
        -  Dane-se, ento. - Ela envolveu os braos ao redor dele. - Vou beij-lo.
        Alanna s faltou deix-lo de joelhos. No houve hesitao, no houve resistncia. Os lbios dela estavam sedentos dos seus, a lngua, ousada. Pressionando 
o corpo no dele, deleitou-se com a sensao de ouvir dois coraes batendo um contra o outro.
        Ela jamais se esqueceria do cheiro do feno e de animais, das partculas de poeira flutuando nos finos raios da luz do sol que se infiltravam atravs das 
aberturas de madeira. Nem esqueceria da sensao daquele corpo forte e slido contra o seu, do calor da boca de Ian, dos sons de prazer que emitia. Recordaria daquele 
nico momento de abandono porque sabia que no poderia durar.         
        -  Solte-me - sussurrou ela.
        Ele aninhou-se na curva do pescoo doce e fragrante.
        -  Duvido que eu possa.
        -  Voc deve. No vim aqui para isso.
        Ian usou a boca para lhe acariciar a orelha e sorriu quando Alanna tremeu.
        -  Voc teria realmente me golpeado, Alanna?
        -  Sim.
        Porque acreditava nela, Ian sorriu novamente.
        -  Que garota agradvel - murmurou ele e mordiscou-lhe a orelha.
        -  Pare com isso. - Mas ela deixou a cabea cair para trs em rendio. Que Deus a ajudasse, mas queria que aquilo continuasse. E continuasse, e continuasse. 
- Isso no est certo.
        Ele a fitou ento, o sorriso desaparecendo.
        -  Eu acho que est. No sei como ou por que, mas acho que est muito certo.
        Porque queria desesperadamente inclinar-se contra ele, Alanna tensionou o corpo.
        -  No pode estar. Voc tem sua guerra e eu tenho minha famlia. No darei meu corao para um guerreiro. E ponto final.
        -  Mas, Alanna...
        -  Eu queria lhe pedir uma coisa. - Ela saiu rapidamente dos braos dele. Mais um momento ali e teria se esquecido de tudo... famlia e todas as esperanas 
secretas para seu prprio futuro. - Considere isso como seu presente de Natal para mim.
        Ian imaginou se ela sabia que naquele momento ele lhe daria tudo que possua, at mesmo a prpria vida.
        -  O que voc quer?
        - Que voc fique aqui at depois do Natal.  importante para Brian. E - acrescentou ela antes que ele pudesse falar - que voc prometa no falar de guerras 
ou revoltas at o dia sagrado passar.
        -    muito pouco para pedir.
        -   No para mim. Para mim, isso  muito importante.
        -  Ento, voc tem a minha palavra. - Ela deu um passo atrs, mas arqueando a sobrancelha, Ian segurou-lhe a mo firme na sua, levou aos lbios e beijou-a.
        -  Obrigada. - Ela retirou a mo rapidamente e escondeu-a atrs das costas. - Tenho trabalho a fazer.
        A voz dele a deteve quando Alanna se apressou em direo  porta.
        -  Alanna... o beijo foi certo.
        Ela colocou o capuz na cabea e saiu.
        
        
        
     Cinco
        
        
        A neve que caa na vspera de Natal encantou Alanna. Em seu corao, tinha a esperana de que a tempestade durasse por dias e impedisse Ian de viajar, como 
sabia que ele planejava fazer dali a dois dias. Sabia que a esperana era tanto tolice quanto egosmo, mas agarrava-se a ela enquanto colocava o cachecol e o casaco, 
a fim de ir para o estbulo e fazer a ordenha da manh.
        Se ele ficasse, ela sofreria terrivelmente. Se partisse, o corao de Alanna ficaria despedaado. Permitiu-se o luxo de um suspiro enquanto observava os 
flocos brancos girando a seu redor. Era melhor no pensar em Ian de forma alguma, mas em suas responsabilidades.
        Seus passos eram o nico som no caminho para o estbulo quando as botas progrediam ao longo do solo coberto de neve. Ento, no silncio absoluto, a porta 
rangeu quando ela ergueu o trinco e abriu-a.
        Do lado de dentro, Alanna pegou os baldes e deu o primeiro passo quando uma mo pousou em seu ombro. Com um grito, ela saltou, derrubando os baldes no cho.
        -  Perdo, Sra. Flynn. - Ian sorriu quando Alanna levou as duas mos para o corao. - Parece que eu a assustei.
        Alanna o teria xingado se lhe restasse algum ar nos pulmes. Nem por um momento teria mantido a cabea erguida se Ian soubesse que ela estivera suspirando 
por ele. Em vez disso, meneou a cabea e respirou profundamente.
        -  O que voc est fazendo? Escondendo-se?
        -  Sa da casa momentos depois de voc - explicou ele. Tinha decidido, aps uma longa noite de reflexo, ser paciente com Alanna. - A neve deve ter ocultado 
minha aproximao.
        O fato de que Alanna estivera sonhando acordada a impedira de ouvi-lo, pensou irritada, e abaixou-se para pegar os baldes no exato momento que Ian fez o 
mesmo. Quando as cabeas colidiram, ela praguejou.
        - Que diabos voc est querendo, MacGregor? Alm de quase me matar de susto?
        Seria paciente, prometeu ele a si mesmo quando esfregou a prpria cabea. Mesmo que aquilo o matasse.
        -  Ajud-la com a ordenha.
        Os olhos dela se arregalaram em confuso.
        -  Por qu?
        Ian suspirou longamente. Pacincia iria ser difcil, se cada palavra que ela lhe dizia era uma pergunta ou uma acusao.
        -  Porque, como tenho observado nos ltimos dias, voc faz muitas tarefas para uma mulher.
        O orgulho era evidente na voz de Alanna.
        -  Posso cuidar de minha famlia.
        -  Sem dvida. - A voz de Ian era igualmente fria.
        Mais uma vez, ambos abaixaram para os baldes ao mesmo tempo. Ele fez uma careta. Alanna endireitou o corpo enquanto ele pegava um dos baldes.
        -  Aprecio sua oferta, mas...
        -  Eu s vou ordenhar uma vaca, Alanna. - Era difcil ter pacincia. - No pode aceitar uma ajuda dada de bom grado?
        -   claro. - Pegando o outro balde e virando-se, ela foi para a primeira baia.
        No precisava da ajuda dele, pensou enquanto tirava as luvas e as batia no colo. Era perfeitamente capaz de fazer suas tarefas. lan dissera que ela tinha 
muito trabalho a fazer. Bem, na primavera, havia o dobro, com as plantaes, os cuidados do jardim e a colheita de ervas. Era uma mulher forte e capaz, no garotinha 
fraca e chorosa.
        Ele provavelmente estava acostumado com damas, refletiu ela com desdm. Rostos adocicados que sorriam com afetao atrs de leques. Bem, Alanna no era uma 
dama com vestidos de seda e sapatos finos, e no se envergonhava nem um pouco disso. Enviou um olhar na direo de Ian. E se ele achava que ela ansiava por ficar 
sentada em uma sala de visitas, estava muito enganado.
        Alanna jogou a cabea para trs quando comeou a tirar o leite da vaca listrada, o qual caa no balde.
        Garota ingrata, pensou lan enquanto, com menos facilidade e delicadeza, ordenhava a segunda vaca. Queria apenas ajudar. Qualquer tolo podia ver que as tarefas 
dela comeavam quando o sol nascia e terminavam quando o sol se punha. Se no estava ordenhando, estava cozinhando. Se no estava cozinhando, estava fiando. Se no 
estava fiando, estava esfregando.
        As mulheres da famlia de Ian nunca haviam sido "damas do lazer", mas sempre tinham filhas, irms ou primos para ajudar. Tudo que Alanna possua eram trs 
homens que obviamente no se davam conta do fardo que caa sobre ela.
        Bem, ele iria ajud-la, mesmo que tivesse de estrangul-la para faz-la aceitar ajuda.
        Alanna terminou o primeiro balde muito antes que Ian, e ficou batendo o p no cho, impacientemente. Quando ele acabou, ela tentou pegar o balde, mas Ian 
o tirou de seu alcance.
        -  O que voc est fazendo?
        -  Vou carregar o leite para voc. - Ele pegou o outro balde.
        -  Por que voc faria isso?
        - Porque  pesado - replicou ele quase gritando, ento, murmurando sobre mulheres teimosas, de cabea vazia, marchou para a porta.
        -  Continue balanando os baldes assim, MacGregor, e ter mais leite no cho do que em sua barriga. - Alanna no pde ouvir o que ele respondeu, mas no 
fora nada corts. Desconfiada, limpou a neve do rosto. - J que voc insiste em carregar o leite, eu vou recolher os ovos.|
        Eles andaram em direes opostas.
        Quando Alann retornou para a cozinha, Ian ainda estava l, alimentando o fogo.
        - Se voc est esperando pelo caf-da-manh, ter de ter um pouco mais de pacincia.
        -  Vou ajudar voc - disse ele entre os dentes cerrados.
        -  Ajudar-me com o qu?
        -  Com o caf-da-manh.
        Aquilo a irritou. Sem se preocupar com quantos ovos se quebrariam, Alanna depositou o balde no cho com fora desnecessria.
        -  Voc achou algum defeito na minha comida, MacGregor?
        As mos dele coaram de vontade de segurar-lhe os ombros e sacudi-la.
        -  No.
        -  Hmm. - Alanna foi para o fogo a fim de fazer caf. Virando-se, quase colidiu com ele. - Se vai ficar em p na minha cozinha, MacGregor, ento mova-se 
para o lado. Voc no  to grande que eu no possa empurr-lo e tir-lo do meu caminho.
        -  Voc  sempre to agradvel pela manh, Sra. Flynn?
        Em vez de se dignar a responder a pergunta, ela pegou o pedao de presunto que tinha comprado na casa de defumados e comeou a fati-lo. Ignorando-o da melhor 
maneira que podia, misturou os ingredientes para as panquecas, que considerava sua especialidade Mostraria uma coisa ou duas a lan MacGregor sobre cozinhar antes 
que terminasse.
        Ele no falou nada, mas bateu os pratos de peltre que ela pusera sobre a mesa para chamar ateno. No momento em que a famlia se juntou a eles, a cozinha 
estava com um aroma delicioso e uma tenso quase palpvel.
        -  Panquecas - disse Johnny alegremente. -  um bom jeito de comear a vspera de Natal.
        -  Voc parece um pouco ruborizada, garota. - Cyrus estudou a filha enquanto se sentava. - No est adoecendo, est?
        -   o calor do forno - replicou ela, ento mordeu a lngua quando seu pai estreitou os olhos. - Tenho molho de mas que fiz ontem para as panquecas. - 
Alanna ps a travessa que estava carregando sobre a mesa, ento voltou para o caf. Vermelha porque lan ainda no tinha tirado os olhos dela, pegou o pote sem lembrar 
de envolver um pano ao redor do cabo. Quando queimou a ponta de dois dedos, soltou um grito seguido por uma expresso rude.
        - No mencione o nome de Deus quando  voc quem est sendo descuidada - disse Cyrus suavemente, mas se levantou para passar manteiga gelada nas queimaduras 
da filha. - Voc anda muito nervosa e agitada ultimamente, Alanna.
        -  No foi nada. - Com a mo boa, ela gesticulou para que ele voltasse  mesa. - Sentem-se, todos vocs, e comam. Eu os quero fora de minha cozinha para 
que possa terminar meu assado.
        -  Espero que tenha um bolo de uvas frescas na lista. - Johnny sorriu enquanto punha molho de ma no prato. - Ningum faz um bolo de uvas melhor que voc, 
Alanna. Mesmo quando o deixa queimar.
        Ela conseguiu rir, e quase foi sincera, mas estava com pouco apetite para a refeio no momento que se juntou a eles na mesa.
        Melhor assim, decidiu Alanna mais tarde. Apesar de os homens de sua vida terem falado como tagarelas durante o caf-da-manh, no haviam deixado nem mesmo 
farelos para os pssaros. Com alvio, viu-os sarem para o resto do trabalho dirio. Ela tinha a cozinha e o restante da casa para si mesma. Sozinha, deveria ser 
capaz de pensar sobre o que sentia por lan MacGregor.
        Mas ele tinha sado h poucos minutos quando retornou com um balde de gua.
        -  O que voc pretende fazer agora? - perguntou ela, e tentou, em vo, enfiar algumas mechas soltas dentro do gorro.
        -  gua para lavar a loua. - Antes que Alanna pudesse fazer aquilo por si mesma, ele jogou a gua em uma panela sobre o fogo para esquentar.
        -  Eu mesma poderia ter ido buscar - disse ela, ento se sentiu ingrata. - Mas obrigada.
        -  De nada. - lan tirou o casaco e pendurou-o no cabide atrs da porta.
        -  Voc no vai com os outros agora?
        -  H trs deles e s uma de voc. Ela inclinou a cabea.
        -   verdade, e da?
        -  Da que eu vou ajud-la.
        Porque Alanna sabia que sua pacincia estava no limite, esperou um momento antes de falar.
        -  Sou perfeitamente capaz...
        -  Mais do que capaz, pelo que tenho visto. - Ele comeou a empilhar os pratos que ela ia lavar. - Voc trabalha como uma mula de carga.
        -  Esta  uma descrio ridcula e muito rude. - Ela ergueu o queixo. - Agora, saia de minha cozinha.
        -  Eu saio se voc sair.
        - Tenho trabalho a fazer.
        -  Certo, ento vamos trabalhar.
        -  Voc vai ficar no meu caminho.
        -  Voc vai trabalhar a minha volta. - Quando ela inalou a prxima respirao, lan segurou-lhe o rosto nas mos e a beijou longa e apaixonadamente. - Vou 
ficar com voc, Alanna - murmurou no momento que ela conseguiu foc-lo novamente. - E isso est decidido.
        -  Est? - Para a mortificao de Alanna, sua prpria voz soou muito fraca.
        -  Sim.
        -  Certo, ento. - Ela pigarreou, deu um passo atrs e alisou as saias. - Voc pode ir buscar mas para mim no celeiro. Tenho tortas para assar.
        Ela usou o tempo que levou at que lan retomasse para se recompor. O que estava lhe acontecendo que perdia a cabea e todas as suas faculdades mentais por 
causa de um beijo? Mas no era um beijo comum, no quando eram os lbios de lan que faziam o trabalho. Alguma coisa estava acontecendo, uma vez que, em um momento 
sentia o corao cheio de esperana que ele ficasse por mais algum tempo... no momento seguinte, ressentia-se e desejava que ele estivesse a mil quilmetros de distncia. 
E um instante depois estava permitindo que lan a beijasse, e esperando que fizesse isso de novo na primeira oportunidade.
        Alanna tinha nascido nas Colnias, uma criana de um mundo novo. Mas seu sangue era irlands... irlands o bastante para que palavras como sorte e destino 
se agigantassem.
        Quando comeou a lavar a loua, pensou que, se seu destino fosse lan MacGregor, estava com um enorme problema.
        -  muito fcil descascar uma ma - insistiu ela mais tarde, irritada com as tentativas desajeitadas de lan. - Voc pe a faca debaixo da pele.
        -  Eu fiz isso.
        - E cortou a maior parte da fruta junto com a casca. Um pouco de tempo e cuidado fazem maravilhas.
        Ele sorriu-lhe, de uma maneira muito estranha para a tranqilidade de Alanna.
        - Assim acredito, Sra. Flynn. Assim acredito.
        - Tente de novo - disse ela enquanto voltava para a massa da torta e o rolo. - E voc vai limpar todas essas cascas que est derrubando no cho.
        - Sim, Sra. Flynn.
        Erguendo o rolo para massas, ela o encarou.
        -  Est tentando me deixar nervosa, MacGregor? Ele olhou para a arma de cozinha.
        - No enquanto voc estiver segurando isso, querida.
        -  Eu j lhe disse para no me chamar assim.
        -   verdade.
        lan observou-a voltar para as tortas. Era um prazer observ-la, pensou. Mos rpidas, dedos flexveis. Mesmo quando ela se movia do balco para o fogo e 
voltava, havia uma agilidade nos movimentos que o encantava, fazendo seu corao disparar.
        Quem diria que teria de ser baleado, quase sangrar at a morte e acabar inconsciente na baia de uma vaca para se apaixonar?
        Apesar da desaprovao de Alanna, da tendncia para um sobressalto cada vez que ele se aproximava, lan estava tendo o melhor dia de sua vida. Talvez no 
quisesse que o ato de descascar mas se tornasse um hbito, mas era uma maneira simples de estar perto dela, de absorver o aroma suave de lavanda que parecia aderir-se 
 pele dela. Misturava-se sedutoramente com os aromas de canela, gengibre e cravo-da-ndia.
        E, na verdade, embora se sentisse mais  vontade em reunies polticas ou com uma espada na mo do que na cozinha, tinha desejado amenizar o que considerava 
um fardo injusto de responsabilidades.
        Ela no parecia pensar assim, decidiu lan. Na verdade, parecia contente em trabalhar, hora aps hora. Ele queria... precisava, admitiu... mostrar-lhe que 
existiam mais coisas na vida. Imaginou-se cavalgando com Alanna ao longo dos campos da plantao de sua tia. No vero, pensou, quando o rico verde a lembraria de 
uma Irlanda que ela nunca vira. Queria lev-la para a Esccia, para a glria de Highlands. Deitar-se com ela na urze prpura perto de um lago e ouvir o vento nos 
pinheiros.
        Queria dar-lhe um vestido de seda, e jias que combinassem com seus olhos. Olhos que eram sentimentais, romnticos, perceptivos. Ele sabia disso, mas certamente 
teria gaguejado nas palavras se tivesse tentado express-las.
        Mas queria dar-lhe essas coisas, isso era certo. Se pudesse encontrar um jeito de faz-la aceitar.
        Alanna  sentiu o olhar de Ian nas suas costas como se fossem dedos lhe fazendo ccegas. Teria preferido os dedos, pensou Aqueles dedos que mal conseguia 
afastar. Esforando-se para ignor-lo, cobriu a primeira torta, canelou, enfeitou a crosta e colocou-a de lado.
        - Voc vai cortar um dedo se continuar olhando para mim em vez de prestar ateno no que est fazendo.
        - Seus cabelos esto escapando do gorro de novo, Sra. Flynn.
        Ela ergueu uma das mos e tentou ajeitar os cabelos, mas s conseguiu soltar mais cachos.
        - E no acho que gosto do tom que voc usa quando me chama de Sra. Flynn.
        Sorrindo, Ian ps de lado uma ma descascada.
        -  Como devo cham-la ento? Protesta quando eu a chamo de querida, apesar de combinar tanto com voc. Ergue o nariz quando a chamo de Alanna... sem sua 
permisso. Agora, est prestes a ter uma crise de nervos quando eu, muito respeitosamente, a chamo de sra. Flynn.
        -  Respeitosamente, ah! Voc vai para o inferno por mentir, Ian MacGregor. - Ela balanou o rolo para ele quando se virou. - No h um pingo de respeito 
no seu tom quando me chama assim... no com esse sorriso presumido na boca e esse brilho nos olhos. Se acha que no sei o que esse brilho significa, est enganado. 
Outros homens tentaram isso e receberam um bom golpe por seus esforos.
        -  Gratifica-me saber disso... Sra. Flynn.
        Ela emitiu um som que ele poderia descrever como vapor quente saindo de uma chaleira.
        -  No me chame de nome algum. Por que assumi o papel de Brian e lhe pedi que ficasse at o Natal sempre ser um mistrio para mim. O bom Deus sabe que eu 
no o quero aqui, desorganizando minha cozinha, dando-me uma outra boca para alimentar, agarrando-me e forando sua presena no bem-vinda perto de mim o tempo todo.
        Ele encostou-se contra o balco.
        -  Voc vai para o inferno por mentir, querida.
        Foi o reflexo do momento que fez o rolo para massa voar da mo de Alanna em direo  cabea dele. Ela arrependeu-se imediatamente. Porm, arrependeu-se 
ainda mais quando Ian agarrou a pea de madeira no ar um instante antes de atingir-lhe a cabea.
        Se Alanna o tivesse atingido, teria se desculpado copiosamente e cuidado do ferimento. O fato de que tinha sido frustrada mudava a questo de forma completa.
        - Seu maldito escocs - comeou ela, furiosa. - Voc  filho do demnio. Rogo uma praga em voc e em todos os MacGregors de agora at o ltimo acerto de 
contas. - Uma vez que tinha errado com o rolo de madeira, pegou a coisa mais prxima  mo. Felizmente, a assadeira de metal estava vazia. Ian conseguiu bater no 
prato com o rolo e desvi-lo de sua cabea.
        -  Alanna...
        - No me chame assim. - Ela ergueu uma xcara de peltre e tentou sua mira com aquilo. Dessa vez, Ian no foi to rpido e a xcara bateu-lhe no peito, sem 
machuc-lo.
        -  Querida...
        O murmrio que ela emitiu com aquilo teria feito tremer at mesmo um escocs treinado em batalhas. O prato que Alanna lanou atingiu a perna de Ian. Ele 
estava saltando num p s e rindo no momento em que ela alcanou a prxima arma.
        - Basta! - Gargalhando estrondosamente, ele agarrou-a e girou-a duas vezes, mesmo quando ela batia-lhe na cabea com uma colher de pau.
        -  Escocs de cabea dura.
        -  Sim, e graas a Deus por isso, ou voc j me teria colocado no tmulo a essa altura. - Ele inclinou-lhe a cabea para trs e segurou-lhe a cintura com 
habilidade. - Case-se comigo, Sra. Flynn, pois seu nome deveria ser MacGregor.
        
        
        
     Seis
        
        
        Era difcil saber qual dos dois estava mais chocado. Ian no tinha se dado conta de que pretendia pedi-la em casamento. Sabia que estava apaixonado, e se 
sentia tanto impressionado como fascinado pela idia. Mas, at aquele momento, seu corao no tinha comunicado ao crebro que era casamento o que desejava. Casar-se 
com Alanna, pensou, e foi incapaz de conter uma outra risada. Era uma boa piada, decidiu, para os dois.
        As palavras de Ian ainda estavam ecoando na cabea de Alanna. Case-se comigo. Certamente, no tinha ouvido ou entendido direito o que ele lhe pedira. Era 
impossvel, claro. Era loucura Eles se conheciam apenas h poucos dias. Mas era tempo suficiente para que ela tivesse certeza de que Ian MacGregor nunca seria o 
companheiro de vida de seus sonhos. Com ele, nunca haveria noites pacficas perto da lareira, mas sim uma outra luta, uma outra causa, um outro movimento.
        Entretanto... Entretanto, amava-o de uma maneira que nunca pensou que fosse possvel amar. Com loucura, de forma imprudente, perigosamente. A vida com ele 
seria... seria... Alanna no podia imaginar isso. Colocando uma das mos sobre a cabea tentou deter os pensamentos perturbadores. Precisava de um momento para refletir 
e se recompor. Afinal de contas, quando um homem pedia uma mulher em casamento, o mnimo que ela podia fazer era...
        Ento lhe ocorreu que ele ainda a estava segurando no ar e rindo como um tolo.
        Rindo. Os olhos azuis de Alanna se estreitaram. Ento aquilo era uma grande piada da qual ele ria  sua custa, girando-a no ar como um saco de batatas e 
gargalhando. Casar-se com ele. Casar-se com Ian realmente. O tolo.
        Alanna ps uma das mos sobre o ombro largo para se equilibrar, fechou a outra e o golpeou direto no nariz.
        Ele gritou e a colocou no cho to abruptamente que ela precisou se esforar para no cair. Mas recuperou-se rapidamente e, com os ps plantados no cho, 
ps as mos nos quadris e o encarou.
        Hesitante Ian tocou os dedos no nariz. Sim, estava sangrando, notou. A mulher tinha fora na mo direita. Observando-a com cuidado a fim de ver quaisquer 
movimentos sbitos, pegou um leno no bolso.
        - Isso  um sim?
        - Fora! - To profunda era a raiva dela que tremeu mesmo enquanto gritava. - Fora da minha casa, seu filho de sat. - As lgrimas que ardiam em seus olhos 
eram lgrimas de fria, Alanna assegurou a si mesma. - Se fosse homem, eu o mataria onde voc est e danaria uma ginga sobre seu corpo ensanguentado.
        - Ah! - Aps assentir em compreenso com um gesto de cabea, ele guardou o leno. - Voc precisa de um pouco de tempo para pensar. Perfeitamente compreensvel.
        Sem fala, Alanna podia apenas murmurar gemidos e sons incoerentes.
        - Vou falar com seu pai - Ian educadamente.
        Ela gritou feito uma louca e pegou a faca de descascar.
        - Vou matar voc. Pela minha me, eu juro.
        - Minha querida Sra. Flynn - comeou ele enquanto, cuidadosamente, segurava-lhe o pulso. - Entendo que, s vezes, uma mulher fica abalada com um pedido de 
casamento, mas isso... - Ian parou de falar quando viu que as lgrimas que haviam se acumulado nos olhos dela agora escorriam pela face. - O que foi? - Desconfortvel, 
passou o polegar sobre o rosto bonito. - Alanna, meu amor, no chore. Prefiro que bata em mim a que chore. - Mas quando, galantemente, liberou-lhe a mo, ela jogou 
a faca de lado.
        - Oh, deixe-me em paz, certo? V embora. Como ousa me insultar dessa maneira? Amaldio o dia em que salvei sua vida miservel.
        J que ela o estava amaldioando novamente, Ian criou coragem e pressionou um beijo na sobrancelha de Alanna.
        - Insultar voc? Como?
        - Como? -Atrs do vu de lgrimas, os olhos azuis faiscavam. - Rindo de mim. Falando sobre casamento como se fosse uma grande piada. Suponho que voc pensa 
que porque no tenho roupas bonitas ou chapus chiques tambm no tenho sentimentos.
        - O que chapus tm a ver com isso?
        - Suponho que todas as moas finas de Boston sorriem com indulgncia, e batem na sua mo com os seus leques, nos momentos que voc flerta, mas eu levo a 
conversa sobre casamento mais a srio, e no vou ficar parada enquanto voc fala sobre isso e ri na minha cara ao mesmo tempo.
        - Oh, bom Deus. - Quem pensaria que Ian, um homem que tinha a reputao de ser agradvel e inteligente com as moas pudesse agir de modo to errado quando 
realmente importava? - Fui um tolo, Alanna . Por favor, me oua.
        - Foi e  um tolo. Agora, tire suas mos de mim. Ele a puxou para mais perto.
        - Eu s quero explicar.
        Antes que pudesse fazer isso, Cyrus Murphy abriu a porta. Deu uma olhada para a confuso da cozinha, para sua filha lutando contra Ian e calmamente alcanou 
sua faca de caa no cinto.
        - Solte minha garota, MacGregor, e prepare-se para morrer.
        - Pai. - Com olhos arregalados diante da viso do pai, plida como gelo pela percepo da faca nas mos dele, Alanna  colocou-se na frente de Ian. - No 
faa isso.
        - Mova-se, garota. Os Murphy protegem os seus.
        - No  o que parece - comeou ela.
        - Deixe-nos a ss, Alanna - murmurou Ian calmamente. - Vou conversar com seu pai.
        - Isso  o que voc pensa. - Alanna no saiu do lugar. Talvez ela mesma devesse ter tirado sangue de Ian... e tinha feito isso, se o sangue do nariz contasse... 
mas no deixaria seu pai mat-lo depois que trabalhara dois dias e duas noites para mant-lo vivo. - Ns tivemos uma discusso, pai. Posso lidar com isso sozinha. 
Ele estava...
        - Ele estava pedindo sua filha em casamento - terminou Ian, apenas para fazer Alanna confront-lo de novo.
        - Seu esquilo mentiroso. Voc no falou srio. Estava rindo como um louco quando mencionou o casamento. No serei insultada. No serei menosprezada...
        - Mas ficar quieta - interrompeu ele, e viu Cyrus arquear a sobrancelha em aprovao quando ela obedeceu e se calou. - Eu falei muito srio - continuou 
Ian, o tom de voz ainda alto. - Se eu estava rindo, era de mim mesmo, por ser to tolo de me apaixonar por uma mulher briguenta, teimosa, de lngua afiada, que s 
vezes me sorri e outras vezes me bate e tenta me golpear.
        - Mulher briguenta? - Alanna quase gritou. -Mulher briguenta?
        - Sim, uma mulher briguenta - disse Ian, assentindo com um aceno de cabea. - Foi isso que falei, e  isso que voc .  uma...
        - Basta. - Cyrus balanou a cabea para tirar a neve dos cabelos. - Bom Jesus, que par! - Com alguma relutncia, guardou a faca no cinto. - Pegue seu casaco, 
MacGregor e venha comigo. Alanna, termine suas tortas.
        - Mas, pai, eu...
        - Faa o que eu disse, garota. - Ele gesticulou para que Ian sasse pela porta da cozinha. - Com toda essa gritaria e confuso,  difcil lembrar que  vspera 
de Natal. - Parando do lado de fora, plantou as mos nos quadris num gesto que sua filha tinha herdado. -Tenho trabalho a fazer, MacGregor. Venha comigo e explique-se.
        - Sim. - Ian lanou um olhar furioso para a janela, onde Alanna tinha o nariz pressionado. - Eu vou com voc.
        Ele andou com dificuldade atravs da cortina de neve que ainda estava caindo. No havia se incomodado em fechar o casaco e enfiar as mos sem luvas nos bolsos.
        - Espere aqui - disse Cyrus. Ento, entrou em um pequeno galpo e saiu com um machado na mo. Notando o olhar cauteloso de Ian, ergueu a ferramenta para 
o ombro.
        - No vou usar isso em voc. Por enquanto. - Ele moveu-se para a floresta com Ian ao seu lado. - Alanna adora o Natal. Assim como a me dela adorava. - Houve 
uma pontada de dor, como sempre acontecia toda vez que pensava na esposa. - Ela estar desejando uma rvore... e tempo para se acalmar.
        - Ela alguma vez se acalma?
        Por hbito, Cyrus estudou o solo da floresta  procura de sinais de caa. Eles iriam querer carne de cervo em breve.
        -  voc quem parece estar provocando-a. Por que isso?
        - Se eu pudesse lhe dar uma boa razo, o faria. - Ian suspirou - Peo a mulher em casamento e ela me d um soco no nariz. - Tocando o nariz ainda dolorido, 
sorriu. - Por Deus, Murphy, estou enlouquecido de paixo pela garota... o que me faz tomar uma nica deciso. Vou me casar com ela.
        Cyrus parou diante de um pinheiro, estudou a rvore, rejeitou-a, ento prosseguiu.
        - Isso ainda ser resolvido.
        - No sou um homem pobre - comeou Ian. - Os malditos ingleses no se apossaram de tudo na guerra de 45, e ganhei o bastante com investimentos. Vou prov-la 
bem.
        - Talvez sim, talvez no. Ela aceitou Michael Flynn e ele no possua mais do que alguns acres de uma terra rochosa e duas vacas.
        - Ela no precisar trabalhar desde o nascer do sol at escurecer.
        - Alanna no se importa de trabalhar. Tem orgulho disso. - Cyrus parou diante de uma outra rvore, assentiu, ento entregou o machado para Ian. - Esta serve. 
Quando um homem est frustado, nada melhor do que suar com um machado para extravasar a frustrao.
        Ian abriu as pernas, firmou os ps e deu a primeira machadada. Lascas de madeira voaram.
        - Ela gosta de mim. Sei disso.
        - Talvez - concordou Cyrus, ento decidiu se distrair com um cachimbo. - Ela tem o hbito de gritar com as pessoas de quem mais gosta. Assim como agredi-las 
fisicamente.
        - Ento, ela deve me amar com desespero. - O machado bateu na carne do tronco do pinheiro. 
        A expresso de Ian era desgostosa. 
        - Eu a terei, Murphy, com ou sem sua bno.
        - Isso no  necessrio dizer. - Pacientemente, Cyrus encheu seu cachimbo. - Alanna  uma mulher adulta e pode tomar suas prprias decises. Diga-me, MacGregor, 
voc vai lutar contra os britnicos com a mesma paixo com que vai cortejar minha filha?
        Ian balanou o machado novamente. A lmina assobiou no ar. - 0 som do metal na madeira ecoou atravs da floresta.
        - Sim.
        - Ento, vou lhe dizer agora que pode ser difcil conseguir as duas coisas. - Satisfeito que o cachimbo estava bem completo, ele acendeu um fsforo contra 
a pedra. - Alanna se recusa em acreditar que haver guerra.
        Ian parou. - E voc?
        - No tenho amor pelos britnicos ou pelo rei deles. - Cyrus aspirou do cachimbo e jogou a fumaa atravs da neve. - E mesmo se eu tivesse, minha viso ainda 
 aguada o suficiente para enxergar o que est por vir. Pode levar um ano, dois ou at mais, todavia, a guerra vir. E ser longa e sangrenta. Quando isso acontecer, 
eu terei mais dois filhos para arriscar. Mais dois para perder. - Ele deu um suspiro longo e profundo. - No quero sua guerra, Ian MacGregor, mas vai chegar a um 
ponto no qual um homem ter de lutar pelo que  seu.
        - Esse ponto j chegou, Murphy, e mesmo no querendo ou temendo, a guerra vai mudar a histria.
        Cyrus estudou lan enquanto a rvore caa sobre a almofada de neve. Um homem forte, pensou, um daqueles malditos escoceses gigantes, com um rosto e corpo 
que certamente agradariam uma mulher. Uma cabea boa e um bom nome. Mas era o esprito impaciente e revoltado de Ian que o preocupava.
        - Vou lhe perguntar uma coisa. Voc ficaria contente em se sentar e esperar o que est por vir, ou vai sair e procurar por isso?
        - Um MacGregor no espera para apoiar o que acredita. Nem espera para lutar por isso.
        Assentindo com um movimento de cabea, Cyrus ajudou-o a levantar a rvore cada.
        - No vou atrapalhar seus planos no que diz respeito a Alanna. Talvez voc faa isso por si mesmo.
        Alanna correu para frente do chal no momento que ouviu a voz deles.
        - Pai, eu quero... Oh! - Ela parou com a viso de seu pai e lan com um enorme pinheiro entre os dois. - Voc cortou uma rvore de Natal.
        - Achou que eu esqueceria? - Cyrus tirou seu gorro e guardou-o no bolso. - Como eu poderia quando voc fica pedindo isso dia e noite?
        - Obrigada. - Foi tanto com prazer quanto com alvio que ela atravessou o cmodo para beij-lo. -  linda.
        - E suponho que voc vai querer pendurar fitas e s Deus sabe o que mais nela. - Mas ele apertou-lhe o brao com carinho enquanto falava.
        - Tenho a caixa de ornamentos de mame no meu quarto. - Porque entendia o pai muito bem, beijou-o novamente. - Irei buscar depois do jantar.
        - Tenho outras tarefas para fazer agora. Diga a MacGregor onde voc quer a rvore. - Ele deu-lhe um tapinha rpido na mo dela antes de sair.
        Alanna pigarreou.
        - Perto da janela da frente, por favor.
        lan arrastou a rvore, equilibrando-a nas tbuas de madeira que Cyrus tinha martelado ao tronco.
        - Obrigada - disse ela de maneira educada. - Pode ir cuidar de suas coisas agora.
        Antes que Alanna pudesse escapar para a cozinha novamente, ele pegou-lhe a mo.
        - Seu pai me deu permisso para casar com voc, Alanna. Ela puxou a mo uma vez, ento sabiamente desistiu.
        - Sou dona de minha prpria vida, MacGregor.
        - Voc ser minha, Sra. Flynn.
        Embora ele fosse bem mais alto do que ela, Alanna conseguiu dar a impresso de estar olhando-o de cima.
        - Eu no me uniria a um indivduo desprezvel. Determinado a fazer a coisa certa dessa vez, lan levou-lhe a mo rgida aos lbios.
        -         Eu amo voc, Alanna.
        -         No. - Ela pressionou a mo livre no corao disparado. - No diga isso.
        - Digo isso com cada respirao que dou. E repetirei o mesmo at no mais respirar.
        Atordoada, ela fitou aqueles olhos azul-esverdeados que vinham perseguindo suas noites. Podia resistir  arrogncia dele. Podia lutar contra o modo como 
ele a humilhava. Mas aquilo... aquela declarao simples e quase humilde de devoo a deixou sem defesa.
        - lan, por favor...
        Ele emocionou-se porque ela, finalmente, o chamara pelo primeiro nome. E a expresso nos olhos azuis quando as palavras saram dos seus lbios no podia 
ser confundida.
        - Voc no pode dizer que  indiferente a mim.
        Incapaz de resistir, Alanna tocou-lhe o rosto com uma das mos.
        - No, no vou lhe dizer isso. Voc deve ver como me sinto cada vez que o olho.
        - Ns nascemos para ficarmos juntos. - Com os olhos fixos em Alanna, ele pressionou a palma delicada contra os lbios. - Senti isso desde o primeiro instante 
que a vi inclinada sobre mim no estbulo.
        - Tudo est acontecendo muito rpido - disse ela, lutando tanto contra o pnico como contra o desejo. - Muito cedo.
        - E muito certo. Eu a farei feliz, Alanna. Voc pode escolher a casa que quiser em Boston.
        - Boston?
        - Por um tempo, pelo menos, ns moraramos l. Tenho trabalho a fazer. No futuro, podemos ir para a Esccia, e voc pode visitar sua terra natal.
        Mas ela estava meneando a cabea.
        - Trabalho. Que trabalho  esse?
        Uma nuvem protetora pareceu descer sobre os olhos de lan.
        - Dei minha palavra que no falaria sobre isso at o Natal.
        - Sim. - Ela sentiu o corao disparado parar por um segundo, e um arrepio percorrer-lhe a coluna. - Voc prometeu. - Aps respirar profundamente, olhou 
para baixo e viu as mos unidas dos dois. - Tenho tortas no forno. Preciso retir-las.
        - Isso  tudo que voc pode dizer?
        Alanna olhou para a rvore atrs dele, ainda nua, mas contendo tantas promessas.
        - Vou lhe pedir um tempo para refletir. Amanh, no Natal eu lhe darei minha resposta.
        - S h uma que vou aceitar. Aquilo a ajudou sorrir.
        - S vou dar uma.
        
        
        
        
     Sete
        
        
        Havia a fragrncia de pinho e fumaa de madeira, o aroma prolongado da grossa sopa de carne com legumes. Na grande mesa perto do fogo, Alanna tinha colocado 
o bem precioso de sua me, uma jarra de vidro para ponche. Como era hbito desde que Alanna podia se lembrar, seu pai misturava o ponche natalino com uma poro 
generosa de usque irlands. Ela observou o lquido cor de mbar refletir a luz do fogo e o brilho das velas j acesas na rvore.
        Tinha prometido a si mesma que aquela noite, e o dia de Natal que se seguiria, seriam apenas para alegria.
        Como deveria ser, disse a si mesma. Qualquer coisa que tivesse ocorrido entre seu pai e lan naquela manh, eles agora pareciam mais amigos do que nunca. 
Ela notou que Cyrus entregou uma caneca de ponche para lan antes de usar a concha para servir-se e beber um grande gole. Antes que Alanna pudesse evitar, o jovem 
Brian estava provando o drinque.
        Bem, eles todos dormiriam naquela noite, decidiu ela, e estava prestes a pegar uma caneca para si mesma quando ouviu o som de uma carruagem.
        - A est Johnny. - Ela deu um suspiro de irritao. - E pela segurana dele  melhor que tenha uma boa desculpa para ter perdido o jantar.
        - Cortejar Mary - disse Brian com a boca dentro da caneca.
        - Pode ser, mas... - Ela parou quando Johnny entrou, com Mary Wyeth em seu brao. Automaticamente, Alanna olhou ao redor do cmodo, aliviada ao ver que tudo 
estava em ordem para receberem visita. - Mary, que bom ver voc. - Alanna foi rapidamente dar um beijo no rosto da jovem. Mary era mais baixa e mais rechonchuda 
do que ela, com cabelos loiros brilhantes e face rosada. Pareciam mais rosadas do que o usual, notou Alanna... ou pelo frio devido  jornada desde a vila, ou de 
calor pelos cortejos de Johnny.
        - Feliz Natal. - Sempre tmida, Mary enrubesceu ainda mais quando uniu as duas mos. - Oh, que rvore adorvel.
        - Venha para perto do fogo. Voc vai ficar com frio. Deixe-me pegar sua manta e gorro. - Ela lanou um olhar exasperado para o irmo, enquanto ele ficava 
parado e sorria tolamente. - Johnny sirva uma caneca de ponche e alguns dos biscoitos que assei esta manh para Mary.
        - Sim. - Ele entrou em ao, derrubando ponche nos dedos em seu nervosismo. - Faremos um brinde - anunciou, ento passou um tempo considervel pigarreando. 
-  minha futura esposa. - Pegou a mo nervosa de Mary na sua. - Mary me aceitou esta noite.
        - Oh! - Alanna  abriu as mos e tocou os ombros de Mary, uma vez que a garota no tinha mo livre. - Seja bem-vinda. Embora como voc vai agentar meu irmo, 
no fao idia.
        Cyrus, sempre desconfortvel com emoes, deu um beijinho rpido no rosto de Mary e um tapa carinhoso nas costas do filho.
        - Ento, vamos beber em homenagem  minha nova filha - disse ele. - Este  um bom presente de Natal que voc nos deu, John.
        - Precisamos de msica. - Alanna voltou-se para Brian, que assentiu e saiu apressado para pegar sua flauta. - Uma msica romntica, Brian - instruiu ela. 
- A primeira dana  dos noivos.
        Brian apoiou-se em um dos ps da cadeira e comeou a tocar. Quando Ian aproximou-se e ps a mo em seu ombro, Alanna tocou-lhe os dedos brevemente, e com 
gentileza.
        - A idia de um casamento lhe agrada, sra. Flynn?
        - Sim. - Com um sorriso emocionado, ela observou o irmo danando com Mary. - Ela o far feliz. Eles construiro um bom lar juntos, uma boa famlia.  tudo 
que quero para ele.
        Ian sorriu quando Cyrus virou uma outra caneca de ponche e comeou a bater palmas no ritmo da msica.
        - E para voc? Ela virou-se, encontrando-lhe os olhos.
        -  tudo que eu sempre quis. Ele se aproximou mais.
        - Se me der sua resposta agora, poderamos ter uma comemorao dupla na vspera de Natal.
        Alanna meneou a cabea, enquanto seu corao se despedaava um pouquinho.
        - Esta  a noite de Johnny. - Ento riu quando Johnny pegou-lhe as mos e puxou-a para a dana.
        Uma nova neve caa, suavemente, do lado de fora do chal. Mas dentro, os cmodos estavam preenchidos com luzes, risadas e msica, Alanna pensou em sua me 
e o quo feliz ela teria ficado de ver sua famlia unida e alegre na noite mais sagrada do ano. E pensou em Rory, o vivido e maravilhoso Rory, que poderia ter danado 
lindamente e erguido sua voz de tenor numa bela msica.
        - Seja feliz. - Impulsivamente, ela envolveu os braos ao redor do pescoo de Johnny. - Fique seguro.
        - Agora, do que se trata tudo isso? - Emocionado e envergonhado, ele a abraou rapidamente e afastou-a.
        - Amo voc, seu tolinho.
        - Sei disso. - Johnny notou que seu pai estava tentando ensinar uma ginga a Mary. Aquilo quase o fez sorrir. - Aqui, Ian, tire essa garota das minhas mos. 
Um homem tem de descansar de vez em quando.
        - Ningum pode danar melhor que um irlands - Ian disse a ela quando lhe pegou a mo. - A menos que seja um escocs.
        - Oh,  assim? - Com um sorriso e uma inclinao da cabea que indicava arrogncia, Alanna comeou a danar para provar que ele estava errado.
        
        Embora as velas tivessem queimado antes que os ocupantes da casa dormissem, as comemoraes comearam novamente ao amanhecer. Ao redor da rvore e do fogo, 
eles trocaram presentes. Alanna sentiu um imenso prazer ao observar a expresso de Ian enquanto ele erguia o cachecol que ela lhe tecera. Embora tivesse passado 
cada minuto de seu tempo de folga para unir os fios verdes e azuis no tear, o resultado valera a pena. Quando ele partisse, levaria uma parte dela.
        O corao de Alanna balanou ainda mais quando viu que Ian tinha presentes para a sua famlia. Um novo cachimbo para seu pai, rdeas novas para o cavalo 
favorito de Johnny e um livro de poesia para Brian.
        Mais tarde, lan estava em p a seu lado na igreja da vila e embora ela ouvisse  histria do nascimento do Salvador com tanto encantamento quanto quando 
era criana, teria sido cega se no notasse as outras mulheres enviando olhares na direo deles Olhares de inveja e curiosidade. Alanna no protestou no momento 
que a mo dele se fechou sobre a sua.
        - Voc est adorvel hoje, Alanna. - Do lado de fora da igreja onde as pessoas haviam parado para conversar e desejar um feliz Natal umas s outras, lan 
beijou-lhe as mos. Apesar de saber que as fofocas correriam soltas por semanas, ela lhe deu um sorriso atrevido. Era mulher o bastante para saber que estava bonita 
em seu melhor vestido de l azul, com toques de renda no decote e nos punhos.
        - Voc tambm est bonito, MacGregor. - Ela resistiu  vontade de tocar o colarinho engomado da camisa. Era a primeira vez que o via to arrumado, com cala 
justa e camisa branca, casaca com botes brilhantes e chapu sofisticado sobre os cabelos ruivos Aquela teria uma outra lembrana dele para guardar como tesouro. 
- E est um lindo dia.
        Ele olhou para o cu.
        - Vai nevar antes que a noite caia.
        - E que dia melhor para a neve cair do que no Natal? - Ento ela tocou a boina azul que Johnny lhe dera. - Mas o vento est forte. - Alanna sorriu quando 
viu Johnny e Mary cercados de cumprimentos pelo noivado. -  melhor voltarmos. Tenho um peru para verificar.
        Ele ofereceu-lhe o brao.
        - Permita-me escolt-la at sua carruagem, Sra. Flyrm.
        - Muita gentileza sua, Sr. MacGregor.
      
        Ian no podia se lembrar de um dia mais perfeito. Embora ainda houvesse tarefas a serem feitas, conseguiu passar cada momento livre com Alanna. Talvez uma 
parte sua desejasse que a famlia dela estivesse a quilmetros de distncia, de modo que pudessem ficar a ss para que ele tivesse sua resposta. Mas determinou-se 
a ser paciente, no tendo dvidas de qual seria a resposta. Ela no podia sorrir-lhe, olh-lo, beij-lo daquela forma a menos que estivesse to apaixonada quanto 
ele. Ian podia ter desejado roub-la, jog-la sobre seu cavalo e partir, mas, por uma vez, queria fazer tudo de maneira apropriada.
        Se fosse o desejo de Alanna, eles poderiam se casar na igreja onde fora a missa de Natal. Ento ele alugaria... ou melhor, compraria... uma carruagem azul 
com detalhes em prateado. Isso combinaria com ela. Na carruagem, viajariam para Virgnia, onde ele a apresentaria para seus tios e primos.
        De alguma maneira, Ian conseguiria uma viagem para a Esccia onde encontraria seus pais, seus irmos e irms. Eles se casariam novamente l, na terra onde 
ele tinha nascido.
        Podia visualizar tudo. Eles se estabeleceriam em Boston, onde comprariam uma boa casa. Juntos, iniciariam uma famlia enquanto ele lutaria, com voz ou espada, 
pela independncia de seu pas adotado.
        Durante o dia, os dois discutiriam e brigariam, mas  noite se deitariam juntos em seu grande colcho de penas, os longos membros esbeltos de Alanna entrelaados 
ao seu redor.
        Aparentemente, desde que a conhecera, no podia mais imaginar a vida sem ela.
        A neve caiu, mas com suavidade. Depois que o peru com batatas, o repolho azedo e os biscoitos foram devorados, Ian estava meio enlouquecido de impacincia.
        Em vez de se juntar aos homens perto da lareira, pegou o cap de Alanna e entregou-o a ela.
        - Preciso de um momento com voc.
        - Mas eu no terminei...
        - O resto pode esperar. - Pelo que ele podia ver, a cozinha estava impecvel. - Quero falar com voc em particular.
        Ela no protestou, no poderia, porque seu corao j estava sofrendo quando Ian a conduziu para a neve do lado de fora. Mal teve tempo de pegar seu chapu. 
Quando Alanna apontou que ele no tinha abotoado a capa contra o vento, Ian a pegou nos braos e, com passos longos, carregou-a para o estbulo.
        - No h necessidade para nada disso - apontou ela. - Posso andar to bem quanto voc.
        - Voc vai molhar seu vestido. - Ele virou a cabea e beijou-lhe os lbios salpicados de neve. - E gosto muito de carreg-la.
        Depois de coloc-la no cho do lado de dentro, Ian fechou a porta e acendeu um lampio. Ela cruzou os braos na altura da cintura. Era agora, Alanna disse 
a si mesma, que a celebrao do Natal tinha de acabar.
        - Ian...
        - No, espere. - Ele se aproximou e tocou-lhe os ombros gentilmente. O sbito gesto carinhoso roubou a fala dela. - Voc no se perguntou por que eu no 
lhe dei um presente esta manh?
        - Voc me deu um presente. Ns concordamos...
        - Pensou que eu no tivesse mais nada para voc? - Ian pegou-lhe as mos, que estavam geladas porque ele no lhe dera tempo para luvas, e aqueceu-as com 
as suas. - Neste nosso primeiro Natal juntos, o presente precisa ser especial.
        - No, Ian, no h necessidade.
        - H toda a necessidade. - Ele enfiou a mo no bolso da cala e retirou uma pequena caixa. - Enviei um rapaz da vila at Boston para pegar isso. Estava em 
meus aposentos l. - Ian colocou a caixinha na mo dela. - Abra.
        A mente de Alanna queria recusar, mas o seu corao... seu corao no podia. Dentro, ela viu um anel. Aps uma leve arfada, pressionou os lbios. Era de 
ouro no formato de uma cabea de leo e coroa.
        - Este  o smbolo do meu cl. O av cujo nome eu carrego mandou faz-lo para sua esposa. Antes de morrer, deu para meu pai, para que fosse passado para 
mim. Quando parti da Esccia, ele me disse que tinha a esperana que eu encontrasse uma mulher forte, sbia e leal para us-lo.
        O n na garganta de Alanna estava to apertado que as palavras doeram quando ela as falou.
        - Oh, Ian, no. Eu no poderia. Eu no...
        - Nenhuma outra mulher vai usar este anel. - Ele o tirou da caixa e o colocou no dedo dela. Poderia ter sido feito para Alanna, to perfeitamente serviu. 
Naquele momento, Ian sentiu como se o mundo fosse seu. - No vou amar nenhuma outra mulher. - Levando a mo do anel aos lbios, observou-a. - Com isso, eu lhe prometo 
meu corao.
        -  Eu amo voc - murmurou ela, sentindo seu mundo se partir em dois. - Sempre o amarei. - Haveria tempo para arrependimentos, dor e lgrimas, pensou Alanna 
quando a boca de Ian tocou a sua. Mas esta noite, pelas horas que eles teriam, ela lhe daria mais um presente.
        Gentilmente, puxou-lhe a capa dos ombros. Com a boca movendo-se avidamente sobre a dele, comeou a desabotoar a casaca.
        Com mos trmulas, Ian parou as dela.
        - Alanna...
        Ela meneou a cabea e tocou com um dedo os lbios dele.
        - No sou uma garota inocente. J vim para voc como mulher, e peo-lhe que me aceite como uma. Preciso que voc me ame, Ian. Esta noite, nesta noite de 
Natal, preciso disso. - Desta vez, foi Alanna quem lhe capturou as mos e levou-as aos prprios lbios. Era imprudncia, sabia. Mas era certo. - E preciso amar voc.
        Nunca antes ele tinha se sentido to desajeitado. Suas mos pareciam grandes demais, meio rudes, seu desejo to profundo e intenso. Jurou que se no conseguisse 
realizar mais nada na vida, amaria Alanna gentilmente e lhe mostraria o que estava escrito em seu corao.
        Com cuidado, deitou-a sobre o feno. No era o colcho de penas que desejava para ela, mas os braos delgados o envolveram de livre e espontnea vontade, 
e ela sorriu quando levou a boca at a sua. Com um murmrio apaixonado, Ian inclinou-se sobre ela.
        Foi mais do que Alanna jamais sonhara, o toque das mos de seu amado em seus cabelos, em seu rosto. Com muita pacincia, com incrvel doura, ele a beijou 
at derreter-lhe todas as aflies do corao. Quando Ian desabotoou seu vestido, deslizando-o pelos ombros, tocando a pele ali, e murmurando coisas to tolas, a 
fez querer sorrir e chorar ao mesmo tempo.
        Ele sentiu os dedos fortes e capazes de Alanna lhe tirarem a casaca, abrir-lhe a camisa, e ento deslizarem sobre seu peito.
        Com cuidado, despiu-a, devagar, demorando-se em cada passo, para dar prazer e receber. Com cada toque, com cada gosto, a resposta dela crescia. Ele ouviu 
o corao de Alanna bater acelerado, a respirao ofegante no seu ouvido, ento sentiu os dentes dela em sua pele quando se entregou aos encantos do corpo dela.
        Um aroma delicado de lavanda misturado com a fragrncia do feno. Uma pele clara e suave brilhando na luz sombreada do lampio. Suspiros delicados fundindo-se 
com seus prprios gemidos O rico brilho dos cabelos pretos enquanto Ian pegava um punhado nas mos.
        Alanna estava tremendo. Mas com paixo. Muita paixo. Tentou falar o nome dele, mas conseguiu apenas enterrar as unhas nos ombros largos. De onde vinha aquele 
ardor, aquele rio selvagem que parecia flutuar em seu interior? E aonde acabaria? Fascinada, desesperada, arqueou-se contra Ian enquanto as mos grandes e fortes 
viajavam como raios sobre os pontos de prazer que Alanna jamais soubera que possua.
        Sua boca estava na dele, vida, sedenta, quando Ian a levou para o primeiro pico, e, ento, para alm disso. O gemido profundo de Alanna foi abafado contra 
os lbios e o prprio gemido de satisfao de Ian.
        Ento, ele estava em seu interior, profundamente. Com a glria daquilo, Alanna abriu os olhos. Viu o rosto de Ian sobre si, os cabelos cor de fogo brilhando 
 luz do lampio.
        - Agora ns somos um. - A voz dele era baixa e rouca pela paixo. - Agora, voc  minha.
        E ele abaixou a boca para a dela, enquanto davam um ao outro o prprio tesouro.
        
        
        
     Oito
        
        
        Eles cochilaram, um de frente para o outro, o casaco de Alanna jogado ao acaso sobre os corpos entrelaados, quentes e repletos pelo ato de amor.
        Ian murmurou o nome dela.
        Alanna acordou.
        A meia-noite tinha chegado e passado, pensou ela. E seu tempo havia terminado. Todavia, roubou mais alguns minutos, estudando-lhe o rosto enquanto ele dormia, 
memorizando cada feio, cada ngulo. Apesar de saber que o rosto de Ian j estava gravado em sua mente e em seu corao.
        Um ltimo beijo, disse a si mesma quando roou os lbios nos dele. Um ltimo momento.
        Quando ela se moveu, Ian protestou:
        -  Voc no vai escapar to facilmente, Sra. Flynn.
        O corao de Alanna disparou com o modo perverso como ele disse seu nome.
        -  Est quase amanhecendo. No podemos ficar mais tempo.
        -  Muito bem, ento. - Ele sentou-se e comeou a se vestir. - Suponho que, mesmo sob essas circunstncias, seu pai sacaria a faca novamente se me encontrasse 
nu sobre o feno com sua filha. - Com alguma tristeza, vestiu a cala. Gostaria que tivesse palavras para lhe dizer o que aquilo tinha significado para ele. O que 
o amor dela significava. Com a camisa aberta, levantou-se para beijar-lhe a nuca. - Voc tem feno nos cabelos, querida.
        Alanna deu um passo para o lado e comeou a limpar os cabelos com os dedos.
        -  Perdi meus grampos.
        - Gosto dos seus cabelos soltos. - Ian engoliu em seco e aproximou-se para acarici-los. - Meu Deus, eu os adoro soltos.
        Ela quase se inclinou contra ele antes de perceber o que estava fazendo.
        -  Preciso do meu gorro.
        - Se precisa. - Prestativo, ele comeou a procurar. - Na verdade, no me lembro de um Natal melhor do que este. Pensei que tivesse atingido o auge da felicidade 
quando eu tinha 8 anos e ganhei um cavalo baio. Ele era muito forte, com o temperamento de uma mula. - lan achou o gorro debaixo do feno espalhado. Com um sorriso, 
ofereceu-lhe. - Mas, embora seja uma competio difcil, voc ganhou sobre o cavalo.
        Ela conseguiu sorrir.
        -  Fico lisonjeada com isso, MacGregor. Agora, tenho de preparar o caf-da-manh.
        -  Tudo bem. Podemos contar  sua famlia durante a refeio que vamos nos casar.
        Alanna respirou profundamente.
        -  No.
        -  No h razo para esperar, Alanna.
        -  No - repetiu ela. - Eu no vou me casar com voc.
        -  claro que vai! - explodiu lan, agarrando-lhe ambos os ombros. - No tolero jogos no que diz respeito a isso.
        -  No  um jogo, lan. - Embora os dentes estivessem batendo um no outro, ela falou calmamente - No quero me casar com voc.
        Se Alanna ainda estivesse com a faca na mo e o golpeasse, teria lhe causado menos dor.
        -  Voc mente. Olha no meu rosto e mente. No poderia ter me amado como me amou durante a noite e no querer pertencer a mim.
        Os olhos de Alanna permaneciam secos, to secos que ardiam.
        -  Eu amo voc, mas no vou me casar. - Ela meneou a cabea antes que ele pudesse protestar. - Meus sentimentos no mudaram. Nem os seus, sei disso. Mas, 
entenda, lan, sou uma mulher simples, com esperanas simples. Voc vai fazer sua guerra e no ficar contente enquanto no acabar. Vai lutar na guerra se durar um 
ano ou dez anos. Eu no posso perder mais uma pessoa que amo, quando j perdi tantas. No aceitarei seu nome e lhe darei meu corao s para v-lo morrer.
        -  Ento, voc est me propondo uma barganha? - Furioso, lan se afastou dela. - No vai compartilhar a minha vida a menos que eu me satisfaa em viver ignorando 
tudo em que acredito? Para ter voc, eu preciso virar as costas para meu pas, para minha honra e minha conscincia?
        -  No. - Ela uniu as mos com fora, e lutou para no torc-las. - No estou lhe propondo barganha alguma. Dou-lhe sua liberdade com o corao aberto e 
sem arrependimento pelo que aconteceu entre ns. No posso viver no mundo que voc quer, lan. E voc no pode viver no meu. Tudo que lhe peo  que me d a mesma 
liberdade que estou lhe oferecendo.
        -  Pois eu no darei. - Ele a segurou de novo. Os dedos que tinham sido to gentis na noite anterior a machucavam agora. - Como pode pensar que uma diferena 
na viso poltica pode me impedir de lev-la comigo? Voc me pertence, Alanna. No existe nada alm disso.
        - No  apenas uma diferena na viso poltica. - Porque sabia que estava preste a chorar, Alanna esforou-se para manter a voz firme e fria. -  uma diferena 
em esperanas e sonhos. Todos os meus sonhos e todos os seus. Eu no lhe peo que sacrifique os seus, lan. E no vou sacrificar os meus. - Ela afastou-se, mantendo 
a postura rgida. - No quero voc. No quero passar minha vida a seu lado. E, como uma mulher livre para aceitar ou rejeitar o que lhe agrada, eu no farei isso. 
No h nada que voc possa dizer ou fazer para mudar as coisas. Se gostar de mim verdadeiramente, no vai nem mesmo tentar.
        Ela pegou seu gorro e amassou-o nas mos.
        -  Seus ferimentos esto curados, MacGregor.  hora de voc partir. Eu no o verei novamente.
        Como isso, ela virou-se e fugiu.
        Uma hora depois, na segurana de seu quarto, ouviu-o partindo a cavalo. Foi ento, e somente ento, que se permitiu deitar na cama e chorar. Apenas quando 
as lgrimas molharam o ouro no seu dedo  que percebeu que no tinha devolvido o anel a lan. Nem ele pedira.
        
        Ian demorou trs semanas para chegar  Virgnia, e mais uma antes que pudesse trocar mais do que algumas palavras com algum. Na biblioteca de seu tio, relaxou 
o bastante para discutir os acontecimentos de Boston, e outras partes das reaes das Colnias e dos Parlamentos. Embora Brigham Langston, o quarto conde de Ashburn, 
tivesse vivido na Amrica por quase trinta anos, ainda tinha fortes conexes na Inglaterra. E, como lutara por suas crenas na Rebelio de Stuart, lutaria pelo seu 
pas natal novamente por liberdade e justia em seu lar.
        -  Certo, basta de tramas e segredos por esta noite. - Nunca muito preocupada em respeitar o solo masculino santificado, Serena MacGregor Langston entrou 
na biblioteca. Os cabelos ainda eram to vermelhos e brilhantes quanto tinham sido em sua juventude. As mechas grisalhas no perturbavam a mulher que sabia t-las 
ganho.
        Apesar de lan ter se levantado para cumprimentar a tia, o marido continuava encostado contra o consolo da lareira. Ele era, pensou Serena, to bonito como 
sempre. Mais, talvez. Os cabelos estavam grisalhos, mas o sol do Sul havia lhe bronzeado o rosto, dando-lhe uma cor que lembrava o carvalho. E o corpo era to magro 
e musculoso quanto ela se lembrava ser havia quase trinta anos. Ela sorriu quando seu filho mais velho, Daniel, serviu-a de usque e a beijou.
        -  Voc sabe que sua presena encantadora  sempre bem-vinda, mame.
        -  Voc fala como seu pai. - Ela sorriu, satisfeita que ele tinha herdado as feies de Brigham, tambm. - Sabe muito bem que no me queria aqui agora. Tenho 
de relembr-lo novamente que j lutei em uma rebelio. No  verdade, Sassenach!
        Brigham sorriu-lhe. Ela o chamava pelo termo escocs ofensivo que era usado para se referir aos ingleses desde o primeiro momento em que tinham se conhecido.
        -  Eu alguma vez tentei mudar voc?
        -  Voc no  um homem que tenta quando sabe que vai fracassar. - E ela deu-lhe um beijo estalado na boca. - lan, voc est perdendo peso. - Serena j tinha 
decidido que dera ao rapaz tempo suficiente para digerir qualquer coisa que o estivesse perturbando. Enquanto a me dele estivesse do outro lado do oceano, Serena 
cuidaria do sobrinho. - Tem alguma reclamao quanto  comida?
        -  Suas refeies, como sempre, so maravilhosas, tia Serena.
        -  Ah! - Ela deu um gole no usque. - Sua prima Fiona disse que voc ainda no a levou para um passeio a cavalo. - Serena falava de sua filha mais nova. 
- Espero que ela no tenha feito nada para aborrec-lo.
        - No. - Ele trocou a posio dos ps. - No, eu s ando um pouco, ah, distrado. Irei me certificar de sair com ela amanh ou depois.
        -  timo. - Ela sorriu, decidindo esperar at que eles estivessem sozinhos para descobrir o que estava perturbando o sobrinho. - Brig, Amanda gostaria de 
sua ajuda para escolher o pnei certo para o jovem Colin. Pensei que tivesse criado bem minha filha mais velha, mas, aparentemente, ela acha que voc tem um olho 
melhor para cavalos do que eu. Oh, e Daniel, seu irmo est no estbulo. Ele me pediu para envi-lo para l.
        - O rapaz no pensa em outra coisa seno em cavalos - comentou Brigham. - Puxou a Malcolm.
        -  Tenho de lembr-lo de que meu irmo mais novo se deu muito bem com os cavalos.
        Brigham ergueu o copo em direo  esposa.
        -  No precisa me lembrar disso.
        -  Eu vou. - Daniel ps o copo sobre a mesa. - Se conheo Kit, ele provavelmente est tramando algum esquema louco sobre procriao novamente.
        -  Oh, e, Brig. Parkins est nervoso com alguma coisa. Com o estado de sua jaqueta de montaria, acredito. Eu o deixei em seu closet.
        -  Ele est sempre nervoso - murmurou Brigham, referindo-se ao seu criado de longo tempo. Ento viu o olhar da esposa e entendeu seu significado. - Vou at 
l ver se consigo acalm-lo.
        -  Voc no vai me deixar sozinha, vai, lan? - Abrindo as saias rodadas, Serena se sentou, satisfeita que a sala tivesse esvaziado. - Ns no tivemos muito 
tempo para conversar desde que voc chegou. Tome mais um usque e me faa companhia por um tempo. - Ela sorriu, de modo tranqilizador. Aquele era um outro jeito 
que tinha aprendido de conseguir o que queria, sem precisar gritar e xingar. - E conte-me sobre suas aventuras em Boston.
        Porque estava descala, como sempre preferia ficar, cruzou as pernas sobre a cadeira debaixo das saias coloridas, conseguindo parecer tanto elegante quanto 
ridiculamente jovem. Apesar de se sentir melanclico e deprimido, lan pegou-se sorrindo para a tia.
        -  Tia Serena, voc  linda.
        - E voc est tentando me distrair. - Ela inclinou a cabea, de modo que os cabelos, sempre rebeldes, caram-lhe sobre os ombros.
        - Sei tudo sobre o que vocs fizeram com o ch, meu rapaz. - E de um MacGregor para outro, eu o cumprimento. E - continuou - sei que os ingleses j esto 
se lamentando. Eu queria que engasgassem com seu prprio ch maldito. - Ela ergueu uma das mos.
        - Mas no me deixe comear a falar sobre isso.  verdade que quero ouvir o que voc tem a dizer sobre os sentimentos das pessoas da Nova Inglaterra e de 
outras partes da Amrica, mas, por enquanto, quero saber sobre voc.
        -  Sobre mim? - Aps um gole do drinque, lan deu de ombros. -  bobagem fingir que voc no sabe sobre todas as minhas atividades, minha aliana com Sam 
Adams e com os Filhos da Liberdade. Nossos planos se movem lentamente, mas movem-se.
        Serena quase foi levada a questionar mais sobre aquilo, mas Brigham e suas prprias fontes poderiam dar todas as informaes que ela precisava.
        -  Estou perguntando num nvel mais pessoal, lan. - Mais sria, ela inclinou-se para frente a fim de tocar-lhe a mo. - Voc  o primeiro filho de meu irmo 
e meu afilhado. Eu ajudei a traz-lo para este mundo. E sei, como sei que estou sentada aqui, que voc est sofrendo por alguma coisa que no tem nada a ver com 
poltica ou revolues.
        -  E tudo a ver com isso - murmurou ele, e bebeu o usque.
        -  Conte-me sobre ela.
        lan enviou um olhar perspicaz  tia.
        -  No mencionei a palavra "ela".
        - Voc a mencionou um milho de vezes com seu silncio. - Serena sorriu enquanto mantinha a mo dele nas suas. - No adianta querer esconder as coisas de 
mim, meu rapaz. Somos do mesmo sangue. Qual  o nome dela?
        - Alanna - ele ouviu-se dizendo. - Que ela v para o inferno! Com uma risada gostosa, Serena recostou-se.
        -  Gostei do som disso. Conte-me.
        E ele contou. Embora no tivesse a inteno de fazer isso. Em meia hora, tinha contado tudo a Serena, desde o primeiro momento em que recuperara a conscincia 
no estbulo, at sua partida furiosa e frustrante.
        -  Ela ama muito voc - murmurou Serena.
        Enquanto contava a histria, lan havia se levantado para andar da lareira at a janela, e de volta para o fogo. Apesar de estar vestido como um cavalheiro, 
movia-se como um guerreiro. Parou diante do fogo agora, as chamas estalando as suas costas. Serena lembrou-se tanto de seu irmo Coll que uma tristeza profunda a 
assolou por um momento.
        -  Que tipo de amor  esse que faz um homem partir e o deixa com apenas meio corao? - questionou ele.
        -  Um amor profundo e assustador. - Ela se levantou ento, para estender-lhe as mos. - Isso eu entendo, lan, mais do que posso lhe dizer. - Sofrendo pelo 
sobrinho, levou-lhe as mos ao seu rosto.
        -  No posso mudar o que sou.
        -  No, voc no pode. - Com um suspiro, Serena puxou-o para se sentar ao seu lado. - Nem eu podia. Somos filhos da Esccia, meu querido. Espritos de Highlands. 
- Mesmo enquanto falava, a dor pela terra natal perdida era aguda. - Nascemos rebeldes, temos isso no sangue. Somos guerreiros desde que o mundo comeou. Entretanto, 
quando lutamos, fazemos isso somente pelo que  direito nosso. Nossa terra, nossos lares, nosso povo.
        - Alanna no entende isso.
        - Oh, acho que ela entende muito bem. Talvez, no possa aceitar. Mas por que voc, um MacGregor, a deixou quando ela lhe disse isso? Por que no lutou pelo 
que queria?
        -  Ela  uma mulher briguenta e teimosa que no ouve a voz da razo.
        - Ah. - Escondendo um sorriso, Serena assentiu. Tambm fora chamada de teimosa repetidas vezes durante sua vida... e por um homem em particular. Tinha sido 
orgulho que fizera seu sobrinho montar um cavalo e partir para lamber as feridas na Virgnia. Orgulho era alguma coisa que Serena entendia muito bem. - E voc a 
ama?
        -  Eu a esqueceria se pudesse. - Ele cerrou os dentes. - Talvez eu possa voltar e assassin-la.
        -  Duvido que voc chegaria a esse ponto. - Levantando-se ela acariciou-lhe a mo. - Fique um tempo conosco, lan. E confie em mim, tudo vai dar certo no 
final. Devo ir agora e resgatar seu tio de Parkins.
        Serena o deixou olhando para o fogo. Mas em vez de ir procurar o marido foi para a sala de estar e escreveu uma carta.
        
        - Eu no posso ir. - Com a face vermelha, os olhos brilhantes, Alanna parou diante do pai, a carta ainda nas mos.
        - Voc pode e ir - insistiu Cyrus. - Lady Langston a convidou para uma visita a fim de agradecer pessoalmente a voc por ter salvo a vida do sobrinho dela. 
- Ele firmou o cachimbo entre os dedos e rezou para que no estivesse cometendo um erro. - Sua me desejaria isso para voc.
        -  A viagem  muito longa - comeou Alanna rapidamente. - E em um ms ou dois ser hora de fazer sabo e plantar e separar l. Tenho muito trabalho para 
fazer uma viagem. E... e no tenho roupas apropriadas para vestir.
        -  Voc ir, representando esta casa. - Cyrus endireitou a coluna numa postura orgulhosa. - Nunca ser dito que um Murphy se acovarda da idia de encontrar 
pessoas de uma classe social mais elevada.
        -  No estou me acovardando.
        -  Voc est morrendo de medo, garota, e isso me deixa plido de vergonha. Lady Langston quer conhec-la. Bem, tenho primos que lutaram ao lado do cl dela 
na guerra de 1745. Um Murphy  to bom quanto um MacGregor em qualquer circunstncia.... melhor do que um no que diz respeito a isso. Eu no pude lhe proporcionar 
a instruo que sua me queria para voc...
        -  Oh, papai.
        Ele meneou a cabea com veemncia.
        -  Sua me vai me rejeitar quando eu me juntar a ela depois dessa vida, caso eu no convena voc a fazer isso. Desejo que voc conhea mais do mundo do 
que essas pedras e essa floresta antes que minha vida chegue ao fim. Ento, faa isso por mim e por sua me, se no por si mesma.
        Alanna enfraqueceu, como Cyrus sabia que aconteceria.
        -  Mas... se lan estiver l.
        -  Ela no disse que ele est, disse?
        -  Bem, no, mas...
        -  Ento,  provvel que ele no esteja. Deve estar fora, agitando multides em algum lugar.
        -  Sim. - Com tristeza, ela olhou para a carta em sua mo. -  mais provvel. - Ento, comeou a perguntar-se como seria fazer uma viagem to longa at a 
Virgnia, onde diziam que a terra era to verde. - Mas quem vai cozinhar? Quem vai lavar e fazer a ordenha? No posso...
        -  No somos inteis por aqui, garota. - Mas ele j estava sentindo a falta da filha. - Mary pode ajudar, agora que est casada com Johnny. E a viva Jenkins 
est sempre disposta a dar uma mo.
        -  Sim, mas no podemos pagar...
        -  No estamos pobres, tambm - replicou ele. - V responder a carta de Lady Langston, dizendo que aceita, de bom grado, o convite para uma visita. A menos 
que esteja com medo de conhec-la.
        -   claro que no estou com medo. - Aquilo serviu para deix-la irritada. - Eu vou - murmurou Alanna, subindo a escada para encontrar papel e pena.
        -  Sim - sussurrou Cyrus quando sua filha bateu a porta. - Mas voc vai voltar?
       
       
       
     Nove
        
        
        Pelo modo como seu corao batia descompassado, Alanna tinha certeza de que poderia explodir em seu peito. Nunca antes tinha viajado em uma carruagem to 
sofisticada, com um bonito par de cavalos puxando-a. E um cocheiro uniformizado. Incrvel os Langston haviam enviado uma carruagem de toda aquela distncia, com 
um cocheiro, mensageiros e uma criada para acompanh-la durante toda a jornada.
        Embora ela tivesse viajado por navio de Boston a Richmond mais uma vez com as companhias que os Langston providenciaram, faria o restante do trajeto at 
a plantao deles pela estrada.
        Eles chamavam a fazenda de Glenroe, em homenagem a uma floresta em Highlands.
        Oh, que emoo tinha sido observar o vento mover as velas do navio, ter sua prpria cabine e a criada delicada para prover suas necessidades. At que a moa 
tinha ficado enjoada pelo balano do navio,  claro. Ento, Alanna cuidara dela. Mas no se impotara nem um pouco. Enquanto a jovem agradecida dormia para se recuperar 
dos enjos, Alanna tinha ficado livre para andar nos deques do grande navio e observar o oceano, tendo vises ocasionais da costa.
        E maravilhava-se pela vastido e beleza de um pas que nunca vira verdadeiramente.
        Era lindo. Embora adorasse a fazenda, a floresta e as pedras de sua Massachusetts natal, achou a terra ainda mais gloriosa em sua variedade. Bem, no momento 
em que deixara sua casa, ainda havia neve no solo. Os dias mais quentes tinham deixado massas pendentes de gelo brilhando nas soleiras da casa e os galhos das rvores 
expostos.
        Mas agora, no Sul, via as rvores verdes e deixou o casaco aberto para apreciar o ar atravs da janela da carruagem. Nos campos, havia bezerros e potros, 
experimentando as pernas e mamando. Em outros, ela viu dzias e dzias de mos negras ocupadas com a plantao da primavera. E estavam somente em maro.
        Somente maro, pensou novamente. Apenas trs meses desde que deixara lan partir. Num hbito nervoso, tocou o contorno do anel que usava pendurado num cordo 
debaixo do vestido. Teria de devolv-lo,  claro. Para a tia dele, pois certamente lan no estaria na plantao. No poderia estar, pensou Alanna com um misto de 
alvio e desejo. Devolveria o anel para a tia dele com algum tipo de explicao do motivo pelo qual a jia estava em sua posse. No a verdade completa, refletiu, 
uma vez que isso seria muito humilhante e doloroso.
        No se preocuparia com isso agora, disse a si mesma e pousou as mos no colo enquanto estudava os morros j esverdeando com a primavera precoce da Virgnia. 
Pensaria naquela jornada, e na visita que faria, como uma aventura. Uma aventura que provavelmente nunca mais teria oportunidade de vivenciar.
        E deveria se lembrar de tudo para contar a Brian, seu irmo curioso. Recordaria de tudo, pensou com um suspiro, para si mesma. Pois aquela era a famlia 
de lan, pessoas que o conheciam desde beb, at que se tornara um homem.
        Pelas poucas semanas que ficaria na plantao com a famlia de lan, se sentiria perto dele novamente. Pela ltima vez, prometeu a si mesma. Ento, retornaria 
 fazenda,  sua famlia e s suas tarefas, e ficaria contente.
        No havia outra maneira. Mas enquanto a carruagem balanava, continuou com os dedos no anel, desejando que pudesse encontrar alguma coragem, a carruagem 
virou em uma entrada em que havia dois pilares enormes de pedra com uma placa de ferro unindo-os no topo, na qual se lia: Glenroe. A criada, mais cansada do que 
ela pela viagem, movimentou-se no assento oposto.
        - Voc logo poder ver a casa, senhorita. - Grata que as semanas de viagem estavam quase no fim, a moa no se conteve e colocou a cabea para fora da janela 
da carruagem. -  a casa mais linda da Virgnia.
        Com o corao disparado, Alanna comeou a brincar com a trana preta que adornava o vestido cinza no qual trabalhara por trs noites. Seus dedos nervosos 
ento tocaram as fitas da boina alisaram a saia do vestido antes de retomarem para o tecido tranado novamente.
        O caminho para a casa era alinhado com carvalhos, suas folhas pequenas abertas e verdes. Pelo que podia ver, o gramado era bem cuidado. Aqui e ali, via rvores 
aparadas j brotando. Ento erguida sobre um cume suave, estava a casa.
        Alanna descobriu-se sem fala. Era uma estrutura majestosa branca, com diversas colunas embelezando a frente como moas delgadas. Varandas que pareciam feitas 
de renda preta enfeitavam as janelas altas no segundo e terceiro pisos. Um terrao largo e abrangente rodeava tanto a frente quando as laterais. Havia flores, profundamente 
vermelhas, em urnas altas de cada lado dos degraus de pedra que levavam s brilhantes portas duplas de vidro.
        Alanna apertou as mos unidas com fora. Precisou de toda sua fora de vontade e orgulho para no gritar, pedindo ao cocheiro que virasse a carruagem e instigasse 
os cavalos a galoparem o mais rpido possvel.
        O que estava fazendo l, num lugar como aquele? O que teria a dizer para algum que podia viver no meio de tanta riqueza? O abismo entre Alanna e lan parecia 
aumentar a cada passo dos cavalos sofisticados.
        Antes que a carruagem parasse na curva do caminho circular, uma mulher passou pelas portas e comeou a descer os degraus da varanda. O vestido rodado era 
verde-claro, adornado com renda cor de marfim. Os cabelos, um tom adorvel de vermelho, estavam simplesmente presos num anel na nuca e brilhavam com a luz do sol. 
Alanna mal tinha acabado de descer da carruagem com a ajuda de um lacaio uniformizado quando a mulher se aproximou, as mos estendidas.
        - Senhora Flynn. Voc  to linda quanto imaginei. - Havia um leve sotaque escocs na voz da mulher que lembrou Alanna de lan. - Mas vou cham-la de Alanna, 
porque sinto que j somos amigas. - Antes que Alanna pudesse decidir como responder, a mulher estava sorrindo e envolvendo-a num abrao. - Sou a tia de lan, Serena. 
Bem-vida a Glenroe.
        - Lady Langston - comeou Alanna, sentindo-se empoeirada, amassada e intimidada. Mas Serena estava rindo e conduzindo-a para os degraus.
        -  Oh, ns no usamos ttulos aqui. A menos que possa nos servir para alguma coisa. Sua jornada foi boa, espero.
        -  Sim. - Ela sentiu que estava sendo carregada por um pequeno redemoinho de cabelos vermelhos. - Devo agradecer  senhora pela generosidade de seu convite, 
por abrir sua casa para mim.
        -  Sou eu que estou grata. - Serena parou  soleira da porta. - Ian  to precioso para mim quanto meus prprios filhos. Venha, vou lev-la a seu quarto. 
Tenho certeza de que voc quer se refrescar antes de conhecer o restante da famlia no ch.  claro que no servimos o produto maldito - continuou Serena suavemente 
enquanto Alanna olhava, boquiaberta, para o hall de entrada, com o teto alto e escadas duplas em caracol.
        -  No,  claro que no - murmurou Alanna com fraqueza quando Serena pegou-lhe o brao para conduzi-la  escadaria da direita. Houve um grito, algum praguejando 
em algum lugar dentro da casa.
        -  Meus dois filhos mais novos. - Despreocupada, Serena continuou a subir. - Eles brigam como dois cachorrinhos.
        Alanna pigarreou.
        -  Quantos filhos voc tem, Lady Langston?
        -         Seis. - Serena levou-a para um corredor com as paredes em tom pastel e tapete grosso. - Payne e Ross so os que voc ouviu fazendo algazarra, os 
gmeos. Num minuto esto brigando e no seguinte jurando defender um ao outro at a morte.
        Alanna distintamente ouviu o barulho de alguma coisa se quebrando, mas Serena no piscou um olho quando abriu a porta para uma sute completa.
        - Espero que voc fique confortvel aqui - disse ela. - Se precisar de alguma coisa,  s pedir.
        De que ela poderia possivelmente precisar? Pensou Alanna, mas no disse nada. O quarto tinha pelo menos trs vezes o tamanho do quarto em que ela dormia 
em sua casa. Algum tinha colocado flores frescas e fragrantes em vasos. Cortar flores em maro!
        A cama, era suficientemente grande para trs, estava coberta com uma colcha de seda azul-clara e enfeitada com diversos travesseiros. Havia um guarda-roupa 
de madeira entalhada, uma cmoda elegante com um espelho ornado em prata, uma mesa delicada com uma cadeira brocada. As janelas altas estavam abertas, de modo que 
a brisa suave fizesse as cortinas puramente brancas balanarem de leve. Antes que ela pudesse falar, uma criada apareceu com um jarro de gua quente.
        -  Sua saleta de estar  por ali. - Serena moveu-se, passando por uma linda lareira entalhada. - Esta  Hattie. - Serena sorriu para a pequena criada negra. 
- Ela cuidar de suas necessidades enquanto voc estiver conosco. Hattie, voc vai cuidar bem da Sra. Flynn, no vai?
        -  Oh, sim, senhora. - Hattie sorriu.
        -  Bem, ento  isso. - Serena deu um tapinha na mo de Alanna, encontrou-a fria e trmula e sentiu uma onda de compaixo. - H mais alguma coisa que eu 
possa fazer por voc?
        -  Oh, no. Voc j fez mais do que o suficiente.
        Eu ainda nem comecei, pensou Serena, mas apenas sorriu.
        - Vou deix-la descansar. Hattie a levar l para baixo quando voc estiver pronta.
        Assim que a porta se fechou atrs da indomvel Lady Langston, Alanna  se sentou cuidadosamente na beirada da cama e perguntou-se como prosseguiria com aquilo.
        Porque estava muito nervosa para permanecer no quarto, permitiu que Hattie a ajudasse a tirar o vestido de viagem e vestir seu melhor traje. A pequena criada 
provou-se perita em penteados e, com dedos hbeis e uma fala cantada, escovou e curvou os cabelos de Alanna at que cassem em cachos escuros sobre o ombro esquerdo.
        Alanna estava prendendo os brincos de sua me nas orelhas e reunindo coragem para descer quando ouviu gritos e barulhos de socos do lado de fora da porta. 
Intrigada, abriu uma pequena fresta, e logo depois abriu completamente para ver dois jovens rolando sobre o tapete do corredor.
        Ela pigarreou.
        -  Bom dia para vocs, cavalheiros.
        Os garotos, um o espelho do outro, com cabelos pretos e olhos cor de topzio, pararam de brigar para estud-la. Como se por um acordo silencioso, se separaram, 
levantaram-se e fizeram uma reverncia para Alanna ao mesmo tempo.
        -  E quem seria voc? - perguntou o garoto do lbio rachado.
        -  Sou Alanna Flynn. - Divertida, ela sorriu. - E vocs devem ser Payne e Ross.
        - Sim. - A resposta veio do garoto de olho roxo. - Sou Payne, e o mais velho, portanto, lhe dou as boas-vindas a Glenroe.
        -  Eu tambm dou as boas-vindas a ela. - Ross deu uma forte cotovelada nas costelas do irmo antes de dar um passo  frente e estender a mo.
        -  E agradeo a vocs dois - disse ela, esperando manter a paz. - Eu estava prestes a descer para me juntar  me de vocs. Talvez possam me escoltar.
        -  Ela estar na sala de visitas.  hora do ch. - Ross ofereceu o brao.
        -   claro que no bebemos a coisa maldita. - Payne ofereceu o seu, tambm. Alanna aceitou ambos os braos. - Os ingleses poderiam for-lo em nossa garganta 
e ns cuspiramos de volta eles.
        Alanna reprimiu um sorriso.
        -  Naturalmente.
        Quando o trio entrou na sala, Serena se levantou.
        - Ah, Alanna, vejo que conheceu minhas jovens feras. - Com um olhar preocupado, ela notou o olho roxo e o lbio ensangentado. - Se  bolo que vocs querem, 
ento vo se lavar antes. - Assim que eles saram, virou-se para apresentar Alanna aos outros na sala. Havia um jovem de aproximadamente 18 anos que Serena chamava 
de Kit, que possua o mesmo tom de pele da me e um sorriso fcil. Uma garota que Alanna calculava que tinha aproximadamente a idade de Brian, com cabelos mais loiros 
do que ruivos, com lindas covinhas.
        - Kit e Fiona iro arrast-la para o estbulo em todas as oportunidades que tiverem - avisou Serena. - Minha filha Amanda vir jantar conosco esta noite, 
acompanhada da famlia. Eles moram em uma plantao nas redondezas. - Ela serviu a primeira xcara de caf e ofereceu a Alanna. - No esperaremos por Brigham e pelos 
outros. Eles esto fora, inspecionando a plantao, e s Deus sabe quando vo chegar.
        - Mame disse que voc vive em uma fazenda em Massachusetts - comeou Fiona.
        - Sim. - Alanna sorriu e relaxou um pouco. - Havia neve no solo quando parti. Nossa temporada de plantao  muito mais curta do que a de vocs.
        A conversa estava fluindo com facilidade quando os gmeos voltaram, aparentemente unidos de novo, enquanto os braos tocavam o ombro um do outro. Com sorrisos 
idnticos, andaram at a me e beijaram-lhe a face.
        -   tarde demais - Serena disse aos dois. - Eu j sei sobre o vaso. - Ela serviu duas xcaras de chocolate. - Ainda bem que era um dos vasos feios. Agora, 
sentem-se, e tentem no derrubar isso no tapete.
        Alanna estava  vontade e apreciando a segunda xcara de caf quando uma exploso de risada feminina veio do hall de entrada.
        -  Papai! - Os gmeos gritaram e saltaram a fim de correr para a porta. Serena apenas olhou para a mancha de chocolate no tapete e suspirou.
        Brigham entrou, bagunando os cabelos dos garotos, um de cada lado seu.
        -  Ento, que danos vocs causaram hoje? - Alanna observou o olhar de Brigham ir primeiro para a esposa. Havia divertimento ali, e alguma coisa muito mais 
profunda, muito mais verdadeira, que a fez sentir uma ponta de inveja. Ento, ele olhou para Alanna. Afastando-se dos garotos, atravessou a sala.
        -  Alanna - comeou Serena -, este  meu marido, Brigham.
        -  Estou encantado em conhec-la finalmente. - Brigham pegou-lhe a mo entre as suas. - Devemos muito a voc.
        Alanna corou de leve. Embora ele fosse velho o bastante para ser seu pai, possua tanto magnetismo que faria o corao de qualquer mulher disparar.
        -  Devo agradecer pela sua hospitalidade, Lorde Langston.
        -  No, voc deve aproveitar e se divertir. - Ele lanou um olhar estranho e, Alanna teve a impresso, exasperado para a esposa. - S desejo que voc permanea 
feliz e confortvel durante sua estada.
        -  Como poderia ser diferente? Vocs tm uma casa magnfica e uma famlia maravilhosa.
        Ele ia comeou a falar novamente, mas a esposa o interrompeu:
        -  Caf, Brig? - Ela j tinha servido e estava estendendo a xcara com uma expresso de aviso. A discusso do casal sobre a tentativa de Serena de bancar 
a casamenteira ainda teria de ser resolvida. - Voc deve estar cansado depois do trabalho. E os outros?
        -  Estavam bem atrs de mim. Pararam brevemente na biblioteca.
        Enquanto ele falava, dois homens entraram na sala. Alanna viu, apenas de modo vago, um homem alto e ruivo, que era uma verso mais jovem de Brigham. Seus 
olhos totalmente perplexos estavam fixos em Ian. No teve nem mesmo conscincia que havia se levantado ou que a sala tinha cado no mais absoluto silncio.
        Ela via apenas Ian, que usava uma cala grossa e jaqueta de montaria, os cabelos desalinhados pelo vento. Ele, tambm, parecia ter congelado no lugar. Diversas 
expresses cruzaram-lhe o semblante. Ento sorriu, mas era um sorriso tenso, revelando uma dureza que a devastou.
        -  Ah, sra. Flynn. Que... surpresa inesperada.
        - Eu... eu...- Alanna gaguejou e olhou ao redor com desespero, procurando lugar para fugir, mas Serena j tinha se levantado para segurar-lhe a mo. Apertou 
os dedos de Alanna brevemente, mas com firmeza.
        -  Alanna foi bem amvel para aceitar meu convite. Ns queramos agradecer pessoalmente a ela por ter cuidado de voc e o mantido vivo para nos perturbar.
        -  Entendo. - Quando Ian conseguiu tirar os olhos de Alanna, enviou  tia um olhar furioso. - Voc  esperta, no , tia Serena?
        -  Oh, sim - replicou ela de modo complacente. - Isso eu sou. Na lateral do corpo, Ian cerrou os punhos. Um n parecia ter se formado em seu estmago.
        - Bem, Sra. Flynn, uma vez que est aqui, terei de lhe dar as boas-vindas a Glenroe.
        -  Eu... - Ela sabia que iria chorar e perder a compostura. - Com licena, por favor. - Dando uma ltima olhada para lan, saiu correndo da sala.
        -  Como voc foi agradvel, Ian! - Meneando a cabea, Serena foi atrs de sua hspede.
        Encontrou Alanna diante do guarda-roupa, tirando as roupas para arrumar as malas.
        -  Agora, o que quer dizer tudo isso?
        - Eu devo ir. Eu no sabia... Lady Langston. Agradeo sua hospitalidade, mas preciso ir para casa imediatamente.
        -  Que bobagem  essa? - Serena segurou-a com firmeza sobre os ombros e conduziu-a em direo  cama. - Agora se sente e acalme-se. Sei que ver lan foi uma 
surpresa, mas... - Ela parou quando Alanna cobriu o rosto com as mos e comeou a chorar.
        -  Oh, minha querida. - Com um jeito totalmente materno, Serena passou os braos ao redor de Alanna e balanou-a. - Ele foi to terrvel assim? Homens, voc 
sabe. Isso apenas significa que devemos ser melhores do que eles.
        -  No, no, foi tudo culpa minha. Fui eu quem fez tudo. - Apesar de se sentir humilhada, ela no pde conter as lgrimas e pousou a cabea no ombro de Serena.
        -  Mesmo que tenha sido, isso no  uma coisa que nenhuma mulher deve admitir. Uma vez que os homens tm a vantagem da fora fsica, ns devemos usar melhor 
o crebro. - Sorrindo, ela acariciou os cabelos de Alanna. - Eu queria ver por mim mesma se voc o amava tanto quanto ele a ama. Agora eu sei.
        -  Ele me odeia agora. E quem pode culp-lo? Mas  melhor assim - murmurou ela chorosa. -  melhor assim.
        -  Ele assusta voc?
        -  Sim.
        -  E seus sentimentos por lan a assustam?
        -  Oh, sim. Eu no quero sentir o que sinto, minha lady. No posso sentir isso. Ele no vai mudar. No ficar satisfeito enquanto no for morto ou enforcado 
por traio.
        -  Os MacGregors no morrem facilmente. Agora, voc tem um leno? Nunca posso encontrar um quando  mais necessrio.
        Fungando, Alanna assentiu e pegou um.
        - Peo perdo, minha lady, por causar uma cena.
        - Oh, eu gosto de cenas, e as causo sempre que possvel. - Ela esperou para ter certeza que Alanna estava mais composta. - Vou lhe contar uma histria de 
uma jovem garota que se apaixonou desesperadamente. Amava um homem que parecia errado para ela. Amou numa poca em que havia guerra e rebelies, e morte por toda 
parte. Ela o rejeitou, repetidamente. Achou que assim seria melhor.
        Secando os olhos, Alanna suspirou.
        -  O que aconteceu com eles?
        -  Oh, ele era to teimoso quanto ela, portanto eles se casaram e tiveram seis filhos. Dois netos. - O sorriso de Serena iluminou-lhe as feies. - Eu nunca 
me arrependi de um nico momento.
        -  Mas isso  diferente.
        - Amor  sempre igual. E nunca  igual. - Ela afastou os cabelos do rosto de Alanna. - Eu estava com medo.
        -  Voc?
        -  Oh, sim. Quanto mais eu amava Brigham, mais medo sentia. E mais eu punia a ns dois negando meus sentimentos. Vai me contar sobre seus sentimentos? Geralmente 
ajuda conversar com uma outra mulher.
        Talvez ajudasse, pensou Alanna. Certamente, no podia doer mais do que j estava doendo.
        - Perdi meu irmo na guerra contra os franceses. Eu era apenas uma criana, mas lembro bem dele. Ele era to inteligente, to lindo! E, como Ian, no podia 
pensar em outra coisa seno em defender e lutar por sua terra, por suas crenas. Ento, morreu por elas. Um ano depois, minha me faleceu. O corao dela estava 
despedaado e nunca pde superar a dor. Vi meu pai sofrer pelos dois, ano aps ano.
        -  No existe perda maior do que daqueles que voc ama. Meu pai morreu em batalha 28 anos atrs, e ainda vejo o rosto dele com muita clareza. Deixei minha 
me na Esccia logo depois disso. Ela morreu antes de Amanda ter nascido, mas ainda mora no meu corao. - Serena pegou as mos de Alanna, com os olhos e intensos. 
- Quando a rebelio aconteceu, meu irmo Coll trouxe Brigham para mim. Ele havia sido baleado e estava quase morrendo. No meu tero, eu carregava nosso primeiro 
filho. Estvamos nos escondendo dos ingleses em uma caverna. Brig ficou um bom tempo entre a vida e a morte.
        Ento, a histria que lan contara a Brian era verdade, pensou Alanna, olhando para a pequena mulher delgada a seu lado.
        -  Como voc pde suportar isso?
        -  Como poderia no suportar? - Ela sorriu. - Ele sempre diz que eu o queria vivo para poder cans-lo. Talvez seja verdade. Mas conheo o medo, Alanna. Quando 
essa revoluo chegar, meus filhos vo lutar, e meu sangue gela com o pensamento de que posso perd-los. Mas se eu fosse homem, pegaria uma espada e me juntaria 
a eles.
        -  Voc  mais corajosa do que eu.
        -  Acho que no. Se sua famlia fosse ameaada, voc se esconderia num canto ou enfrentaria tudo para proteg-los?
        -  Eu morreria para proteg-los. Mas...
        -  Sim. - Serena sorriu amplamente de novo, mas era um sorriso mais suave e mais srio do que antes. - Vai chegar uma hora, e ser em breve, quando os homens 
das Colnias vo perceber que somos um s. Como um cl. E lutaremos para proteger um ao outro. lan sabe disso agora. No  por isso que voc o ama?
        -  Sim. - Ela olhou para as mos unidas de ambas.
        -  Se negar esse amor, ser mais feliz do que abra-lo e aproveitar o tempo que Deus destinou para vocs dois ficarem juntos?
        -  No. - Alanna fechou os olhos e pensou nos ltimos trs meses de sofrimento. - Eu nunca serei feliz sem lan, sei disso agora. Todavia, durante toda a 
vida, sonhei em me casar com um homem forte e calmo, que pudesse ficar contente em trabalhar ao meu lado e criar uma famlia. Com lan, haveria confuso, exigncias 
e riscos. Eu nunca teria um momento de paz.
        -  No - concordou Serena. - Voc no teria. Alanna, olhe dentro de seu corao agora e faa uma pergunta a si mesma. Se o poder estivesse em suas mos, 
voc o mudaria?
        Ela abriu a boca, preparada para gritar um sim ressonante. Mas seu corao, mais honesto do que a cabea, tinha uma outra resposta.
        -  No. Bom Jesus, como fui tola em no perceber que o amo pelo que ele , no pelo que eu gostaria que fosse.
        Satisfeita, Serena assentiu.
        - A vida  cheia de riscos, Alanna. H aqueles que se entregam a eles completamente, e movem-se em direo ao futuro. E h aqueles que se escondem dos riscos 
e permanecem num nico lugar. Qual deles voc ?
        Por um longo tempo Alanna ficou sentada em silncio.
        -  Pergunto-me, minha lady...
        -  Serena.
        -  Pergunto-me, Serena - comeou ela e conseguiu um sorriso -, se eu tivesse voc para conversar, se teria deixado lan partir.
        Serena riu.
        -  Bem, isso  algo para refletir. Descanse agora, e d tempo ao rapaz para se acalmar.
        -  Ele no vai querer falar comigo - murmurou Alanna, ento ergueu o queixo. - Mas eu conseguirei faz-lo me ouvir.
        -  Voc conseguir - disse Serena com uma risada. - Com certeza, conseguir.
       
       
       
     Dez
        
        
        Ian no apareceu para jantar, nem no caf-da-manh do dia seguinte. Enquanto tal fato poderia ter desencorajado a maioria das mulheres, para Alanna representava 
exatamente o tipo de desafio que precisava para superar suas prprias ansiedades.
        Adicionado a isso, estavam os prprios Langston. Era simplesmente impossvel estar no meio de uma famlia como aquela e no ver o que podia ser feito com 
amor, determinao e confiana. Independentemente dos riscos que haviam enfrentado, Serena e Brigham tinham construdo uma vida juntos. Ambos haviam perdido seus 
lares, seus pases e pessoas que amavam, mas reconstrudo tudo com coragem.
        Ela podia negar-se alguma coisa a menos do que uma chance com Ian? Ele lutaria, certamente. Mas Alanna comeava a acreditar que o homem era muito teimoso 
para morrer. E se ela realmente tivesse de perd-lo, no valia a pena ser feliz por um ano, um ms ou um dia nos braos de seu amor?
        Diria isso a Ian. Se ele se dignasse a aparecer. Ela se desculparia. Iria at mesmo, embora fosse difcil, implorar pelo seu perdo e por uma segunda chance.
        Mas, conforme a manh passava, Alanna estava ficando mais irritada do que arrependida. Pediria desculpas, tudo bem, pensou. Depois que lhe desse uma boa 
bronca.
        Foram os gmeos que lhe deram a primeira dica de onde ela poderia encontr-lo.
        - Foi voc quem estragou tudo - declarou Payne enquanto eles vinham se empurrando e se batendo no jardim.
        -  Ah! Foi voc quem o mandou embora. Se tivesse ficado de boca fechada, ns podamos ter ido com ele. Mas voc tem uma boca to grande...
        -  Tudo bem, rapazes. - Serena parou de cortar flores a fim de se virar para os filhos. - Briguem se necessitam, mas no aqui. No quero meu jardim destrudo 
por corpos lutando.
        -   culpa dele - os dois falaram em unssono e fizeram Alanna sorrir.
        -  Eu s queria ir pescar - reclamou Ross. - E Ian teria me levado se Payne no tivesse comeado a falar bobagens.
        -  Pescar. - Alanna  amassou uma flor na mo antes que pudesse se controlar. -  l que Ian est?
        -  Ele sempre vai para o rio quando est triste. - Payne chutou um seixo. - Eu o tinha convencido de nos levar tambm, e se no fosse por Ross Ian no teria 
montado o cavalo e partido sem ns.
        -  No quero pescar de qualquer maneira. - Ross ergueu o queixo. - Quero jogar peteca.
        -  Eu quero jogar peteca - gritou Payne e correu para chegar primeiro.
        - Tenho uma boa gua no estbulo. Uma chesnut bonita que foi um presente de meu irmo Malcolm. Ele  um timo conhecedor de cavalos. - Serena continuou cotando 
flores. - Voc gosta de cavalgar, Alanna?
        -  Sim. No tenho muito tempo para isso em casa.
        -  Ento, aproveite seu tempo livre aqui. - Ela deu um sorriso ensolarado  sua hspede. - V at o estbulo e diga a Jem que pedi para ele selar Prancer 
para voc. Vai gostar de cavalgar em direo ao Sul. H um caminho coberto de rvores que sai bem de trs do estbulo. D rio  muito bonito nesta poca do ano.
        - Obrigada. - Ela comeou a sair, ento parou. - Eu... eu no tenho roupas de montaria.
        - Hattie pode providenciar isso para voc. H uma de Amanda no meu bu .Deve lhe servir.
        -  Obrigada; - Alanna parou, virou-se e abraou Serena. - Obrigada.
        Dentro de trinta minutos estava sobre um cavalo.
        Ian realmente tinha uma linha dentro da gua, mas isso era somente uma desculpa para ficar sentado e refletir. Considerara brevemente estrangular sua tia 
pela interferncia, mas antes que tivesse a chance ela havia entrado no quarto dele e o acusado com tanta convico que Ian no pudera fazer nada, alm de se defender.
        Sim, ele fora rude com a hspede da tia. Essa tinha sido sua inteno.
        Se no fosse tanta covardia fugir, teria montado seu cavalo e ido para Boston. Mas no fugiria uma segunda vez. Desta vez, ela poderia ir embora, e que o 
diabo a carregasse.
        Por que tinha de estar to linda, parada ali sem seu vestido azul, com o sol entrando pela janela e iluminando-a?
        Por que importava a ele a aparncia de Alanna?, pensou irritado. No a queria mais. No precisava de uma mulher briguenta de lngua afiada em sua vida. Havia 
muito trabalho a ser feito.
        Por Deus, ele s faltara implorar para que ela o aceitasse. Como isso feria seu orgulho! E Alanna, atrevida, se deitara com ele no feno, entregando-se, fazendo-o 
acreditar que aquilo lhe importava. lan tinha sido to gentil, to cuidadoso com ela. Nunca antes abrira tanto seu corao para uma mulher. Apenas para que Alanna 
rejeitasse esse amor.
        Bem, esperava que ela encontrasse algum indivduo fraco e sem personalidade, em quem pudesse mandar. E se ele descobrisse que tal homem existia, o mataria 
com suas prprias mos.
        Ian ouviu o som de um cavalo se aproximando e praguejou. Se aqueles dois pestinhas tivessem ido perturbar sua solido, ele os mandaria de volta rapidamente. 
Puxando a linha, levantou-se, preparando-se para ralhar com os primos e envi-los de volta para casa.
        Mas era Alanna que vinha cavalgando pelo bosque. Estava indo rpido, rpido demais para a paz mental de Ian. Sob a boina vistosa, os cabelos estavam soltos 
e balanando com o vento. A alguns metros de distncia, ela freou o cavalo. Mesmo a distncia, Ian pde ver que os olhos azuis continham um brilho espetacular. A 
gua, acostumada com mulheres impulsivas, comportava-se belamente.
        Assim que recuperou o flego, Ian lhe lanou um olhar furioso.
        - Bem, voc conseguiu espantar os peixes para bem longe. No tem bom senso para cavalgar em terreno desconhecido a essa velocidade?
        No era o cumprimento que Alanna esperava.
        - O cavalo conhecia o caminho bem o bastante. - Ela endireitou a coluna, esperando que ele a ajudasse a desmontar. Quando Ian meramente ficou parado, olhando-a, 
Alanna praguejou e esforou-se para descer sozinha. - Voc mudou pouco, MacGregor. Suas maneiras continuam rudes como sempre.
        -  Voc veio at a Virgnia para me dizer isso?
        Alanna enganchou as rdeas da gua num galho de rvore prximo, antes de se virar para ele.
        - Vim a um convite amigvel de sua tia. Se eu soubesse que voc estaria em algum lugar do territrio, no teria vindo. V-lo foi a nica coisa que estragou 
minha viagem, pois, na verdade, nunca entenderei de que maneira um homem como voc pode ser parente de uma famlia to fina. Eu desejaria que voc... - Ela parou, 
respirou fundo e esforou-se para lembrar-se da deciso que tomara aps uma noite inteira de reflexo. - No vim aqui para brigar com voc.
        -  Que Deus me ajudasse se essa fosse sua inteno. - Ian virou-se para pegar a linha. - Voc desceu do cavalo, Sra. Flynn. Imagino que possa montar de novo 
e cavalgar para casa.
        -  Quero falar com voc - insistiu ela.
        - Voc j falou mais do que eu gostaria de ouvir. - E se ele ficasse parado olhando-a por mais um minuto, rastejaria. - Agora, monte e v, antes que me irrite 
demais.
        - Iah, eu s quero...
        -  V para o inferno! - Ele jogou a linha no rio. - Que direito voc tem de vir aqui? Ficar parada ai me fazendo sofrer? Se eu a tivesse matado antes de 
partir, seria um homem mais feliz hoje. Voc me fez pensar que gostava de mim, que o que aconteceu entre ns dois tinha significado alguma coisa para voc, quando 
tudo que queria era ser jogada no feno.
        Toda a cor esvaiu-se do rosto de Alanna, ento a face enrubesceu de novo, com pura fria.
        - Como ousa? Como ousa falar isso de mim? - Ela atacou-o como uma gata selvagem, com unhas e dentes. - Vou mat-lo por isso, MacGregor, e Deus ser minha 
testemunha.
        lan agarrou o que podia para proteger-se, perdeu o equilbrio e tombou de costas com ela dentro do rio.
        O mergulho na gua no a deteve. Alanna o golpeou, o arranhou mesmo enquanto ele escorregava para o fundo e a levava consigo.
        -  Pare, mulher, pelo amor de Deus. Voc vai afogar a ns dois. - Porque ele estava engasgado, tossindo gua e tentando impedir que ela afundasse novamente, 
no viu o soco vindo at que seus ouvidos estivessem zunindo. - Por Deus, se voc fosse homem!
        -  No deixe que isso o impea, seu texugo. - Alanna balanou o corpo, perdeu o equilbrio e afundou de novo.
        Praguejando o tempo todo, lan a ergueu, arrastou-a de volta para a margem do rio, onde ambos se deitaram molhados e sem flego.
        -  Assim que eu tiver foras para me levantar, vou mat-la - murmurou ele para o cu.
        -  Odeio voc - disse ela depois de tossir e expelir a gua do rio. - Amaldio o dia que voc nasceu. E amaldio o dia que o deixei colocar suas mos sujas 
em mim. - Ela conseguiu se sentar e tirar a boina arruinada dos olhos.
        Por que ela tinha de ser to linda mesmo molhada e enraivecida? A voz de lan era gelada quando falou. Um sinal perigoso.
        -  Voc me pediu para colocar as mos em voc, se bem me recordo.
        -  Sim, pedi, para meu desgosto. - Alanna jogou a boina nele. -  uma pena que o que aconteceu no feno no foi mais memorvel.
        -  Oh? - Ela estava muito ocupada tentando ajeitar os cabelos para notar o brilho intempestivo nos olhos de lan. - No foi memorvel?
        -  No, no foi. Na verdade, esqueci tudo sobre aquilo at que voc mencionou.
        Com a dignidade que ainda possua, Alanna comeou a se levantar. Ele a deitou de costas num instante.
        -  Bem, ento, deixe-me refrescar sua memria.
        A boca de lan desceu sobre a dela com desespero. Alanna respondeu mordendo-lhe o lbio. lan praguejou, agarrou-lhe os cabelos molhados e a beijou novamente.
        Ela lutou contra si mesma, contra todos os sentimentos gloriosos que percorriam seu corpo. Lutou contra ele, o corpo firme e slido que cobria o seu de maneira 
to ntima. Como crianas brigando, eles rolaram sobre a margem do rio coberta de capim, cegamente procurando punir por dores antigas e novas.
        Ento, Alanna choramingou, um som de submisso e de alegria. Seus braos estavam ao redor de lan, a boca abrindo-se sedenta para a dele. Toda a fora de 
seu amor explodiu naquele encontro de lbios e abasteceu um fogo que j estava queimando.
        Dedos frenticos abriram botes. Mos desesperadas puxaram roupas molhadas e pesadas. Ento, o sol estava aquecendo-lhes os corpos midos.
        lan no estava gentil agora. Ela no queria isso. Toda a frustao e desejo que haviam reprimido se libertaram numa onda de paixo quando se amaram sob o 
cu azul da primavera.
        Com as mos nos cabelos dele, Alanna puxou-lhe a boca para a sua repetidas vezes, murmurando promessas loucas, fazendo pedidos perversos. No momento em que 
se deitaram no tapete de grama fresca, lan absorveu o aroma que o vinha perseguindo h semanas. Deslizou as mos ao longo da pele alva e suave com a qual vinha sonhando 
noite aps noite.
        Quando Alanna arqueou-se contra ele, suplicando para ser possuda, lan a penetrou. O nome dela estava em seus lbios enquanto enterrava o rosto nos cabelos 
pretos. O nome dele estava nos lbios de Alanna no momento que envolveu as pernas ao redor do corpo musculoso. Juntos, eles se apressaram em direo ao fim que desejavam, 
at que, finalmente, estavam deitados imveis, cada um com seus prprios pensamentos.
        lan apoiou-se em um dos cotovelos e com a outra mo segurou-lhe o rosto. Enquanto o olhava, amando-o, Alanna viu a raiva retornar lentamente aos olhos dele.
        -  Eu no lhe dou escolha dessa vez, Alanna. De livre e espontnea vontade, ou chorando, voc vai se casar comigo.
        -  lan, eu vim aqui hoje para lhe dizer...
        -  No me interessa o que voc veio me dizer. - Ele segurou-lhe o queixo com mais fora. Tinha se esvaziado em Alanna, corpo e alma. Ela o deixara sem nada, 
at mesmo sem seu orgulho. - Voc pode me odiar e me amaldioar de agora at que o mundo se acabe, mas ser minha. Voc  minha. E por Deus, vai me aceitar como 
sou.
        Ela cerrou os dentes.
        -  Se me deixar falar...
        Mas um homem desesperado no ouvia.
        - No vou deix-la de novo. Eu no devia ter deixado antes, mas voc sabe como ferir um homem. Tudo que eu puder fazer para torn-la feliz, farei. Exceto 
abandonar minha prpria conscincia. Isso eu no posso fazer, e no farei. Nem mesmo por voc.
        -  No estou lhe pedindo isso, e nunca pediria. Eu s quero lhe dizer...
        - Que coisa, o que  isso que est cavando um buraco no meu peito? - Ainda praguejando, ele inclinou-se sobre ela. E segurou o anel MacGregor que estava 
pendurado em um cordo ao redor do pescoo de Alanna. Brilhava na luz do sol. Vagarosamente, lan fechou os dedos em volta do anel e a fitou. - Por que... - Ele fez 
uma pausa para se certificar que podia confiar em sua voz. - Por que voc usa isto?
        -  Eu estava tentando lhe dizer, se voc me deixar falar.
        -  Estou deixando voc falar agora, ento fale.
        - Eu ia lhe devolver o anel. - Ela se moveu irrequieta sob ele. - Mas no pude. Parecia desonesto us-lo no dedo, ento eu o amarrei em um cordo e usei-o 
perto de meu corao, onde guardo voc, tambm. No, deixe-me terminar - disse Alanna quando lan abriu a boca. - Acho que eu sabia, mesmo quando ouvi seu cavalo 
partindo naquela manh, que eu estava errada e voc estava certo.
        O comeo de um sorriso brincou na boca dele.
        - Tenho gua do rio em meus ouvidos, Sra. Flynn. Pode repetir isso?
        - Falei uma vez, no vou repetir. - Se Alanna estivesse em p, teria jogado a cabea para trs e erguido o queixo. - Eu no queria am-lo, porque, quando 
voc ama muito, sente medo. Perdi Rory na guerra, minha me faleceu por sofrimento e o pobre Michael Flynn de uma febre. E por mais que essas pessoas significaram 
para mim, eu sabia que voc significava mais ainda.
        Ele a beijou, gentilmente.
        -  No me deixe interromp-la.
        - Eu pensei que quisesse um lar tranqilo e uma famlia, um marido que se contentasse em trabalhar a meu lado e se sentasse comigo diante da lareira noite 
aps noite. - Alanna sorriu agora e tocou-lhe os cabelos. - Mas parece que o que eu sempre quis foi um homem que nunca ficaria contente, que se tornaria impaciente 
diante do fogo aps a primeira ou a segunda noite. Um que lutaria por tudo que est errado ou morreria tentando. Este  o homem que eu teria orgulho de apoiar.
        - Agora voc est me humilhando - murmurou ele e descansou as sobrancelhas contra as dela. - Apenas diga que me ama.
        - Eu amo voc, lan MacGregor. Agora e sempre.
        - Eu juro lhe dar aquela casa, aquela famlia, e me sentar com voc diante do fogo sempre que puder.
        - E eu prometo lutar a seu lado quando a necessidade chegar. Mudando de posio, Alanna arrebentou o cordo e liberou o anel. Os olhos de lan estavam fixos 
nos seus quando ela o deslizou para o dedo.
        -  Nunca mais o tire.
        - No. - Ela pegou-lhe as mos nas suas. - De agora em diante, sou uma MacGregor.
       EPLOGO
        Boston, Vspera de Natal, 1774.
        Nenhuma quantidade de argumentos podia manter Ian fora do quarto, onde sua esposa estava dando  luz pela primeira vez. Embora v-la em trabalho de parto 
congelasse seu corao de homem, manteve-se firme. Sua tia Gwen, com seu jeito calmo e persuasivo, tinha tentado de tudo, mas tambm fracassara.
        -   meu filho, tambm - disse ele. - E no vou deixar Alanna at que o beb nasa. - lan pegou a mo da tia e rezou para que tivesse coragem de cumprir 
sua palavra. - No  que eu no confie em suas habilidades, tia Gwen. Afinal de contas, eu no estaria aqui sem elas.
        - No adianta, Gwen. - Serena riu. - Ele  to teimoso quanto qualquer MacGregor.
        -  Segure a mo dela, ento, quando a dor estiver mais forte. No vai demorar muito mais agora.
        Alanna conseguiu um sorriso quando lan chegou ao seu lado. No imaginara que demoraria tanto para trazer uma criatura to pequena ao mundo. Estava agradecida 
por ele estar a seu lado, e pela presena reconfortante de Gwen, que tinha trazido muitas dzias de bebs ao mundo. O marido de Gwen, que era mdico, estaria l 
tambm, se no tivesse sido chamado para uma emergncia.
        -  Voc est negligenciando os nossos hspedes - disse Alanna para lan em um dos descansos entre as contraes.
        - Eles vo se divertir sozinhos - Serena a assegurou.
        - No duvido. - Ela fechou os olhos quando Gwen limpou-lhe a sobrancelha com um pano frio. Agradava-a muito que sua famlia estivesse l para o Natal. Tanto 
os Murphy quanto os Langston. Alanna deveria estar fazendo suas tarefas de anfitri, e preparando o primeiro Natal na casa que ela e lan haviam comprado perto do 
rio, mas o beb, que no deveria nascer em trs semanas, tinha decidido aparecer mais cedo.
        Quando a prxima dor a atingiu, Alanna apertou a mo de lan e seu corpo ficou tenso.
        - Relaxe, relaxe, concentre-se na respirao - sussurrou Gwen. - Boa garota.
        As contraes estavam mais prximas uma da outra agora, e mais fortes. Um beb de Natal, refletiu Alanna, esforando-se para desviar o pensamento da dor. 
O beb deles, a primeira criana dos dois, seria um presente maravilhoso para ambos no dia mais sagrado do ano.
        No momento que a contrao passou, ela manteve os olhos fechados, escutando a voz suave de lan.
        Ele era um homem bom, um marido slido. Ela sentiu os dedos fortes entrelaando os seus. Verdade, a vida de Alanna no era pacifica, mas repleta de acontecimentos. 
lan tinha conseguido envolv-la em suas ambies. Ou, talvez, as sementes da rebelio sempre tivessem estado no interior de Alanna, querendo ser cultivadas. Ela 
passara a ouvir avidamente os relatrios de reunies que lan freqentava, e a sentir orgulho quando outras pessoas pediam conselho a ele. No podia discordar do 
marido que Port Bill era cruel e injusto. Como lan, Alanna desprezava a idia de pagar pelo ch que tinha sido destrudo para escapar da penalidade.
        No, eles no estavam errados. Ela aprendera que a imprudncia era freqentemente certa. Alanna sorriu. Era a imprudncia e a coisa certa que a tinham levado 
para aquela cama a fim de parir. E agradecia Deus por isso.
        E outras cidades e provncias no haviam se unido para apoiar Boston exatamente como as famlias dela e de lan se reuniram para apoi-los no nascimento do 
filho do casal?
        Alanna pensou sobre sua lua-de-mel na Esccia, onde tinha conhecido a famlia de lan e andado nos campos em que ele passara a infncia. Um dia, voltariam 
l e levariam aquela criana que estava para chegar, a fim de mostrar-lhe o lugar e as razes. E para a Irlanda, pensou quando a dor retornou, deixando-a tonta. 
A criana no esqueceria de seus antepassados. E, enquanto seu filho ou filha lembrasse, escolheria sua prpria vida, sua prpria terra natal. Atravs de seus esforos, 
Alanna  e Ian lhe dariam esse direito.
        -  O beb est chegando. - Gwen deu um sorriso rpido a Ian, confortando-o. - Voc vai ser papai muito em breve.
        -  O nascimento de nosso filho ou filha - disse Alanna ofegante, lutando para focar-se em Ian. - E, logo, o nascimento de nossa nao.
        Embora ele pudesse provar o gosto de seu prprio medo, por ela, riu.
        - Voc est se tornando mais radical do que eu, Sra. MacGregor.
        - No fao nada pela metade. - Oh, bom Jesus, o beb est lutando para viver. - Ela apertou a mo do marido. - Haver pouca dvida que ser filho de seu 
pai.
        - Ou filha de sua me - murmurou Ian, olhando para Gwen com desespero. - Quanto tempo mais? - exigiu saber. - Ela est sofrendo.
        -  Logo. - Ela deu um suspiro de impacincia quando houve uma batida  porta.
        -  No se preocupe. - Serena arregaou as mangas j dobradas at os cotovelos. - Eu os mandarei embora. - Surpreendeu-a encontrar o marido na soleira da 
porta. - Brig, o beb est quase aqui. No tenho tempo para voc agora.
        -  Voc ter tempo. - Ele entrou, passando um brao ao redor da esposa. - Acabei de receber uma mensagem que estava esperando, uma confirmao de Londres 
que eu queria ter antes de falar com voc.
        -  No quero saber sobre as mensagens de Londres - murmurou Serena quando ouviu Alanna gemer.
        - Tio, noticias podem esperar.
        -  Ian, voc precisa ouvir isso, tambm. Esta noite, mais do que todas as outras.
        -  Ento fale logo e v embora - replicou sua esposa.
        -  No ms passado, uma petio foi debatida no Parlamento. - Brigham segurou Serena pelos ombros e fitou-a nos olhos. - O Ato de Proscrio foi revogado. 
- Ele tocou-lhe o rosto com ambas as mos quando os olhos dela se encheram de lgrimas. - O nome MacGregor est livre.
        Junto com as lgrimas caiu um peso que ela vinha carregando durante toda sua vida.
        -  Gwen. Gwen, voc ouviu isso?
        - Sim, ouvi, e agradeo a Deus por isso, mas minhas mos esto cheias neste momento.
        Levando o marido consigo, Serena apressou-se para a cama.
        -  J que voc est aqui - ela disse a Brigham -, vai ajudar. Dentro de minutos, houve o som de sinos da igreja anunciando a meia-noite e o nascimento de 
um novo Natal. E o som do choro de um beb, anunciando vida.
        -  Um filho. - Gwen ergueu a criana nos braos.
        -  Ele est bem? - Exausta, Alanna recostou-se sobre as mos unidas de Brigham. - Ele est bem?
        - Ele  perfeito - Serena a assegurou, secando as prprias lgrimas. - Voc vai segur-lo num momento.
        - Eu amo voc. - Ian pressionou a mo de Alanna em seus lbios. - E lhe agradeo pelo maior presente que um homem pode receber.
        -  Aqui est. - Gwen ps o recm-nascido envolvido numa manta nos braos do pai. - Segure seu filho.
        - Bom Jesus. - Emocionado, ele olhou do beb para Alanna. Era uma imagem que ela iria guardar para sempre. - Ele  to pequeno!
        - Ele vai crescer. - Serena sorriu para o marido. - Eles sempre crescem - Ento colocou um brao em volta da irm, enquanto Ian transferia o beb para os 
braos ansiosos de Alanna.
        - Ele  lindo. - Estendendo um dos braos, ela puxou Ian para mais perto. - No ltimo Natal, ganhamos um ao outro. Neste Natal, ganhamos um filho. - Gentilmente, 
acariciou a cabecinha cabeluda do beb. - Mal posso esperar para ver o que os prximos anos nos traro.
        - Daremos um tempo para vocs ficarem sozinhos. - Brigham pegou a mo da esposa e a da cunhada. - Enquanto isso, vamos descer e contar aos outros.
        - Sim, conte a eles. - lan se levantou, e porque entendia, Alanna deu-lhe o beb para que segurasse mais uma vez. - Diga-lhes que Murphy MacGregor nasceu 
no dia de Natal. - Aps beijar o filho, ergueu-o para mostrar aos outros, e o beb emitiu um grito vigoroso. - Um MacGregor que dir seu nome com orgulho para todos 
aqueles que quiserem ouvir. Que ir caminhar por uma terra livre. Diga-lhes isso.
        - Sim, diga-lhes isso - concordou Alanna quando a mo de lan se fechou sobre a sua. - Por ns dois.
      
Um Mundo Novo - Nora Roberts
Destino 69

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